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Mulheres sonhadoras e solitárias habitam o mundo da ficção e a vida como ela é desde o princípio dos tempos. Virginia Woolf (1882-1941) decerto foi uma das figuras que encarnaram com perfeição maior a coincidência entre mazelas imaginárias e sua própria vida, expediente que levou para textos que souberam romper com a narrativa linear e iluminaram as camadas mais sombrias da alma humana. Esses mergulhos em seu oceano de solidão trouxeram à superfície personagens densos, ensimesmados, num fluxo de consciência por meio do qual Woolf chega a tópicos como o avanço inexorável do tempo, memória, finitude. Mesmo sem saber, Barbara Novak deve muito à autora de ”Um Quarto Todo Seu“ (1929), livro seminal para o feminismo moderno, assunto que o divertido ”Abaixo o Amor“ aborda de modo despretensioso, mas nunca leviano. Peyton Reed volta às comédias românticas dos anos 1960 a fim de opor uma feminista militante e um misógino profissional, cada qual numa luta tão convicta por seus interesses que só podiam mesmo cair nos braços um do outro. Mas até lá, haja intriga.

Guerra dos sexos

Barbara cresce e aparece depois de publicar o volume que empresta o título ao longa, uma verdadeira façanha para uma mulher da Nova Inglaterra naquele distante 1962. Ela prega uma revolução nos costumes, pacífica e incansável, com todas as representantes do belo sexo, o sexo forte, unidas contra os homens, reagindo sem medo a suas cafajestadas e armadilhas, comportamento que, por óbvio, chega à cama. Reed ameniza um qualquer panfletarismo com cenários amplos cheios de móveis típicos do pós-Segunda Guerra e em tons quentes à Tecnicolor, além de recursos visuais como dividir a tela quando os personagens estão falando ao telefone, tudo nostálgico e delicioso. A fofura acaba no momento em que Catcher Block, um redator de revista especializada nos bastidores do mundo dos famosos, cola nela atrás de um furo de reportagem empregando meios nada éticos, com a conivência do chefe. Há óbvias referências às rom-coms levadas pelos melhores amigos Doris Day (1922-2019) e Rock Hudson (1925-1985) no texto de Eve Ahlert e Dennis Drake — especialmente “Confidências à Meia-Noite” (1959), de Michael Gordon (1909-1993) —, mas Renée Zellweger e Ewan McGregor também gozam de seus encantos. Do contrário, nem quereríamos saber se o final é aquele mesmo que havíamos imaginado.


Filme: Abaixo o Amor
Diretor: Peyton Reed
Ano: 2003
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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