Sinônimo de renovação do amor que une todos os seres humanos, o Natal é alento num mundo que insiste em enaltecer o que nos destrói. Se o coração tem razões que a própria razão ignora, o Natal faz reviver sentimentos que julgávamos terem se perdido sobre o gigantesco monte de neve que sempre resta no peito de cada um. Nessa época, afloram histórias contando de relações que soçobram ou que ganham nova vida — e até de casos de amor que caem do azul, movidos, claro, por interesses que extrapolam a razão. Embaralhando isso, Thomas Bezucha chega a “Tudo em Família”, uma crônica da imprevisibilidade, da insânia, do caos imanente da vida que, por acaso, situa-se naquela última e mágica semana do ano. Bezucha congraça temas aparentemente díspares numa narrativa plena de ritmo, habilidosa em fazer-nos rir do que dá medo.
Orgulho e preconceito
Os Stone organizam mais uma festa de Natal, ou seja, revivem suas tragicomédias, lembram do porquê estão juntos e recebem convidados, o que não significa cerimônia ou moderação. Isso se comprova quando Everett, o filho mais velho de Kelly e Sybil, chega com Meredith, empresária do mercado corporativo de Nova York de quem ficou noivo, e então o filme anda. Meredith leva boa dose de tensão ao lar dessa família irritantemente harmoniosa, e o roteiro de Bezucha sabe tirar dessas situações o tom de dúvida que acerta o espectador em cheio e o faz gostar dessas figuras simplórias, claro, mas sem deixar de compreender a forasteira. Ela é sofisticada demais para eles, rica demais, abotoada demais, e Sybil logo percebe que isso não pode ter futuro. Essas cenas dão uma pista do que acontece quando, cansada de apanhar, Meredith chama a irmã, Julie, para encontrá-la, e o que já era péssimo torna-se insuportável. Os conflitos deslocam-se das personagens de Diane Keaton (1946-2025) e Sarah Jessica Parker para a troca de casais que se vislumbra, Dermot Mulroney e Claire Danes num fino balé. Há uma morte também, mas nem precisava: eles já haviam nos conquistado.

