Orson Fortune (Jason Statham) precisa recuperar uma tecnologia roubada antes que ela seja vendida a compradores perigosos. Contratado pelo governo britânico, o espião percorre festas de milionários e propriedades protegidas para chegar ao homem que intermedeia a transação. Em “Esquema de Risco: Operação Fortune”, lançado em 2023 e dirigido por Guy Ritchie, essa missão ganha uma dificuldade peculiar. Para se aproximar do traficante de armas Greg Simmonds (Hugh Grant), Fortune terá de contar com um astro de Hollywood que preferia continuar arriscando a vida apenas diante das câmeras.
A história se passa no presente, entre diferentes países, num circuito de luxo que permite aos envolvidos tratar de negócios criminosos sem abrir mão das boas maneiras. O material desaparecido é conhecido pelo nome de Handle, mas sua natureza permanece incerta durante parte da investigação. Fortune recebe a tarefa de localizá-lo e impedir a venda enquanto procura descobrir o tamanho da ameaça. O problema é que outros interessados também estão atrás da mercadoria, e nenhum deles pretende facilitar seu trabalho.
Um espião de gostos caros
Nathan Jasmine (Cary Elwes) fica encarregado de organizar a operação e administrar as exigências de Fortune. O agente tem talento para o serviço, mas cobra seu preço em conforto, viagens e vinhos. Essa combinação permite a Statham brincar com a própria imagem. Ele continua sendo o sujeito capaz de resolver uma briga sem parecer particularmente preocupado, agora com o comportamento de quem também fiscalizaria a temperatura da bebida.
A graça está na seriedade com que Fortune trata seus caprichos. Statham mantém a expressão fechada mesmo quando o personagem se comporta de maneira pouco compatível com a urgência do trabalho. Nathan precisa acomodar essas vontades enquanto responde pela missão. A relação entre os dois rende boas provocações, embora a competência quase infalível do protagonista enfraqueça parte do suspense. É difícil temer por um homem que parece considerar os adversários um pequeno incômodo entre uma taça e outra.
Sarah Fidel (Aubrey Plaza), especialista em tecnologia, e JJ Davies (Bugzy Malone), responsável pelo apoio de campo e pela precisão com armas, completam o grupo. Sarah participa da investigação, interfere nas operações e responde às provocações de Fortune sem cerimônia. Plaza dá às falas uma tranquilidade irônica que combina com a autoconfiança do colega. Já JJ recebe menos espaço para desenvolver uma personalidade além da eficiência exigida pelo trabalho.
Uma celebridade recrutada à força
A oportunidade de alcançar Simmonds surge quando os agentes descobrem sua admiração por Danny Francesco (Josh Hartnett), um astro de filmes de ação. O bilionário pode desconfiar de desconhecidos interessados em seus negócios, mas adoraria receber seu ator favorito. A equipe decide usar essa fraqueza e obriga Danny a colaborar por meio de chantagem.
Hartnett aproveita bem o desconforto de um homem acostumado a representar coragem, agora cercado por pessoas que carregam armas de verdade. Danny precisa sorrir, conversar e parecer à vontade sem conhecer todas as intenções de seus acompanhantes. Sua fama garante a entrada em ambientes protegidos, mas também o coloca perto de um criminoso que deseja prolongar a convivência.
Esse é o achado mais divertido do roteiro. Fortune sabe lutar, Sarah domina os recursos digitais e JJ oferece cobertura. Danny dispõe de uma habilidade menos previsível naquele ambiente, a capacidade de despertar entusiasmo. O grupo depende de sua presença para atravessar uma barreira que a força poderia tornar ainda mais perigosa.
Hugh Grant recebe a visita
Durante um evento beneficente em Cannes, Fortune se apresenta como empresário de Danny, enquanto Sarah participa do disfarce. Simmonds acolhe o astro com uma intimidade que cresce antes de qualquer confiança verdadeira. Para os investigadores, a recepção oferece acesso ao homem que precisam vigiar. Para o convidado, significa sustentar uma simpatia que poderá ser cobrada a qualquer momento.
Grant faz desse anfitrião o personagem mais saboroso de “Esquema de Risco: Operação Fortune”. Seu traficante mistura gentileza, insistência e uma satisfação quase infantil diante da celebridade. Ele tem dinheiro para comprar experiências exclusivas e dificuldade para aceitar que alguém possa recusá-las. A atenção dedicada a Danny cria situações engraçadas, mas a profissão do anfitrião impede que os convites pareçam inteiramente inofensivos.
A relação entre os dois atores merece mais espaço do que recebe. Hartnett deixa transparecer o esforço de Danny para corresponder às expectativas, enquanto Grant prolonga conversas com o entusiasmo de quem já considera o visitante um amigo. Quando a investigação os afasta, perde-se uma combinação mais interessante do que boa parte das perseguições e dos tiroteios.
Mais charme do que suspense
Ritchie alterna infiltrações, viagens e intervenções armadas sem deixar a história parada por muito tempo. Fortune e seus colegas precisam acompanhar os envolvidos na venda enquanto lidam com concorrentes que também procuram a tecnologia. Há informações suficientes para compreender o objetivo da missão, embora a sucessão de intermediários torne alguns trechos menos envolventes do que o encontro entre o traficante e seu ídolo.
Nas cenas de ação, Statham entrega a segurança habitual. Seus golpes têm firmeza, e sua presença sustenta a disposição física do personagem. Falta, porém, uma vulnerabilidade capaz de tornar os riscos mais convincentes. Os adversários ameaçam a operação, mas raramente parecem capazes de abalar seu protagonista. O interesse acaba dependendo mais das conversas, dos disfarces e das vaidades em circulação.
“Esquema de Risco: Operação Fortune” diverte quando permite que esse elenco explore o absurdo da missão. Plaza acrescenta irreverência, Hartnett transforma o constrangimento em boa comédia e Grant faz de cada gentileza uma possível cobrança. O suspense fica aquém do que a ameaça promete, mas a aproximação entre Danny e Simmonds mantém a curiosidade. Enquanto o bilionário tenta aproveitar a companhia de seu astro favorito, Fortune e seus parceiros procuram uma brecha para chegar à mercadoria.

