Em 2012, na Califórnia, o escritor Jackson Curtis (John Cusack) tenta salvar a família quando terremotos anunciam uma catástrofe que os governos já conheciam. Separado, pai de dois filhos e trabalhando como motorista de limusine, ele recebe os primeiros sinais do perigo sem acesso às informações reservadas às autoridades. Em “2012”, lançado em 2009, Roland Emmerich acompanha essa corrida pela sobrevivência enquanto cientistas e dirigentes preparam uma operação de resgate que deixará boa parte da humanidade de fora.
O problema começa a ser investigado anos antes pelo geólogo Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor). Durante uma visita à Índia, ele recebe dados sobre alterações no interior da Terra, associadas a uma atividade solar incomum. A descoberta chega ao governo americano e desencadeia preparativos secretos para uma calamidade mundial. A explicação científica exige uma generosa suspensão da descrença, mas estabelece uma diferença importante entre os personagens. Alguns têm anos para se preparar. Outros precisarão sair de casa com o que conseguirem carregar.
Um segredo guardado pelos governos
O presidente dos Estados Unidos, Thomas Wilson (Danny Glover), participa das decisões sobre a emergência ao lado do assessor Carl Anheuser (Oliver Platt). Adrian fornece os dados necessários para planejar o resgate, mas sua autoridade termina onde começam os interesses políticos. Saber que milhões de pessoas correm perigo não lhe dá poder para avisá-las.
Emmerich acerta ao colocar o cientista nessa situação desconfortável. Adrian ajuda a construir uma possibilidade de sobrevivência e precisa conviver com os critérios usados para selecionar os beneficiados. Ejiofor sustenta o incômodo sem depender apenas dos diálogos solenes. Seu personagem olha para aquelas decisões procurando as pessoas que ficarão de fora, enquanto Anheuser se ocupa em preservar o plano.
As enormes embarcações conhecidas como arcas são preparadas para resistir ao cataclismo. O acesso, porém, envolve dinheiro, influência e escolhas feitas longe dos olhos da população. Essa disputa dá algum peso humano à destruição. Quando os prédios começarem a cair, haverá gente com destino reservado e gente sem sequer saber para onde correr.
Um pai com pouca credibilidade
Jackson está entre os desinformados. Sua preocupação inicial é passar alguns dias com os filhos, Noah (Liam James) e Lilly (Morgan Lily), numa viagem a Yellowstone. A relação com a ex-mulher, Kate Curtis (Amanda Peet), carrega o desgaste de promessas e compromissos mal cumpridos. Ela vive com Gordon Silberman (Tom McCarthy), cuja presença também incomoda o escritor.
Cusack ajuda a tornar Jackson simpático sem apagar suas falhas. Ele tem o jeito atrapalhado de quem gostaria de ser mais admirado pelos filhos, embora nem sempre ofereça bons motivos para isso. Antes de enfrentar terremotos, precisa vencer a desconfiança doméstica. É uma apresentação familiar e eficiente, porque dá às crianças razões para questionar o pai quando ele passa a exigir obediência.
Em Yellowstone, o passeio esbarra numa área interditada e na presença de autoridades. Jackson conhece ainda Charlie Frost (Woody Harrelson), um radialista convencido de que o mundo está prestes a acabar. Harrelson interpreta o sujeito com uma animação quase ofensiva diante da notícia. Sua satisfação em ter razão torna a conversa engraçada, mas também deixa Jackson diante de uma dúvida incômoda. Aquele homem parece absurdo, embora as restrições no parque deem algum crédito ao que ele diz.
A fuga começa dentro de casa
Quando os tremores se agravam, Jackson precisa reunir Kate, Gordon e as crianças para abandonar a cidade. Não há tempo para resolver ressentimentos ou discutir quem costuma ter razão. A sobrevivência depende de aceitar a urgência do aviso e conseguir transporte antes que as rotas desapareçam.
É nesse trecho que Emmerich trabalha com maior desenvoltura. Ruas se abrem, construções desabam e Jackson procura passagem ao volante de uma limusine. O diretor mantém o veículo à vista e apresenta novos perigos pelo caminho, permitindo acompanhar o objetivo da fuga mesmo quando a destruição ocupa quase toda a tela.
A quantidade de escapadas improváveis chega a ser cômica. Jackson atravessa situações para as quais nenhum motorista, por mais experiente, teria preparo. Em certos momentos, o espectador pode se preocupar mais com a resistência daquela limusine do que com os passageiros. A diversão depende de aceitar esse exagero, embora a repetição enfraqueça o risco. Depois de tantas saídas milagrosas, um novo prédio caindo perde parte da força.
Peet oferece uma reação mais próxima do medo reconhecível. Kate precisa proteger os filhos enquanto depende de um homem em quem aprendeu a confiar com ressalvas. A cooperação entre os adultos interessa mais quando nasce dessa necessidade. As pausas para acertos sentimentais, por outro lado, às vezes pedem uma tranquilidade que ninguém ali deveria ter.
O resgate tem lugares reservados
Enquanto Jackson procura uma saída para os seus, Adrian enfrenta os problemas de uma operação que precisa escolher quem embarca. Anheuser trata as restrições com frieza, preocupado em manter os preparativos sob controle. O cientista insiste no custo humano dessas ordens. A diferença entre eles fica compreensível porque envolve pessoas esperando proteção, e não apenas uma discussão entre funcionários.
Emmerich perde a mão quando prolonga essas conversas ou transforma cada manifestação de afeto numa ocasião solene. Também estende a aventura além do necessário. A família atravessa perigos suficientes para esgotar vários meios de transporte, e a sucessão de emergências acaba cobrando paciência.
Ainda assim, “2012” traz uma aventura envolvente quando permanece perto de Jackson e de suas necessidades mais simples. Cusack preserva o pai inseguro sob os feitos extraordinários, enquanto Ejiofor dá humanidade às decisões tomadas longe da fuga. Entre cidades destruídas e preparativos secretos, os dois procuram proteger pessoas que podem perder. Jackson precisa manter os filhos por perto, conseguir o próximo transporte e chegar ao resgate antes que o acesso seja fechado.

