Discover

Na Inglaterra de 1558, Elizabeth Tudor (Cate Blanchett) assume o trono após a morte da meia-irmã e precisa preservar seu governo diante de disputas religiosas, ameaças estrangeiras e pressões por um casamento. Aos olhos dos conselheiros, a jovem protestante necessita de um marido para assegurar alianças e produzir um herdeiro. Para ela, aceitar essa imposição significa permitir que outros decidam tanto o futuro do país quanto sua vida íntima. É desse impasse que Shekhar Kapur parte em “Elizabeth”, de 1998, um drama histórico cujo maior acerto está na atuação de sua protagonista.

Antes da coroação, Elizabeth conhece o risco de pertencer à família real. Durante o governo da católica Mary Tudor (Kathy Burke), sua religião desperta suspeitas e a leva à prisão. A possibilidade de suceder à irmã faz dela uma ameaça para quem pretende manter o catolicismo no comando. Blanchett apresenta essa jovem sem antecipar a figura solene dos retratos. Ela tem vivacidade, sente medo e ainda espera preservar algum espaço para os próprios desejos. Quando recebe a coroa, leva essas características para um cargo que exige cautela até nas conversas mais banais.

Uma coroa cercada de problemas

Mary deixa um reino endividado, com poucos recursos militares e relações difíceis com países vizinhos. Elizabeth assume o governo sem a experiência que seus assessores consideram necessária, mas também sem a disposição de obedecer a todas as recomendações. A corte reúne homens que se curvam diante dela e, logo depois, questionam suas escolhas. O duque de Norfolk (Christopher Eccleston) é um dos mais hostis. Católico e ambicioso, ele trata a presença da nova soberana no trono como uma situação que pode ser contestada.

Eccleston dá ao personagem uma arrogância que dispensa grandes manifestações. Norfolk olha para Elizabeth com a impaciência de quem acredita estar recebendo ordens da pessoa errada. Essa resistência torna as reuniões de governo particularmente desconfortáveis. Uma decisão sobre defesa ou religião também pode oferecer aos adversários a oportunidade de desacreditá-la. Kapur mantém essas disputas próximas da experiência da protagonista. O espectador acompanha uma mulher que precisa responder por um país enquanto aprende em quem pode confiar.

A atuação de Blanchett dá consistência a esse aprendizado. A atriz permite que a insegurança apareça numa pausa, numa expressão contrariada ou no esforço para sustentar uma ordem diante de homens mais velhos. Elizabeth pode estar convencida de sua autoridade e, ainda assim, hesitar sobre o que fazer com ela. Essa combinação torna a personagem interessante. Sua força cresce entre erros, cobranças e situações para as quais ninguém parece disposto a prepará-la sem exigir obediência em contrapartida.

O conselho quer escolher o marido

William Cecil (Richard Attenborough), seu principal conselheiro, insiste na necessidade de casamento. Seu raciocínio tem fundamento político. Uma união com uma casa real europeia poderia fortalecer a Inglaterra, enquanto o nascimento de um herdeiro daria mais segurança à sucessão. O problema está na facilidade com que ele transforma o corpo e o afeto da soberana em assuntos administrativos. Elizabeth mal começa a governar e já precisa ouvir quem seria o homem adequado para ajudá-la a exercer um poder que pertence a ela.

Attenborough dá a Cecil uma preocupação sincera com o reino, o que impede que suas intervenções sejam apenas antipáticas. Ele acredita estar oferecendo proteção. Ainda assim, seu paternalismo pesa sobre cada conselho matrimonial. Há uma ironia incômoda nessas conversas. Todos reconhecem Elizabeth como rainha, mas muitos parecem considerar provisória sua capacidade de escolher sozinha. A questão permanece familiar, apesar dos séculos de distância e da quantidade de tecido envolvida nos figurinos.

Um romance sob observação

Elizabeth mantém um envolvimento com Robert Dudley (Joseph Fiennes), cuja proximidade lhe oferece uma intimidade rara naquele ambiente. Ao lado dele, ela pode demonstrar afeto, desejo e uma espontaneidade que precisa conter diante dos ministros. Fiennes interpreta Dudley com o charme de quem ocupa um lugar privilegiado e deseja conservá-lo. A relação ajuda a perceber o que a protagonista arrisca perder quando qualquer escolha amorosa passa a ser examinada por seu valor diplomático.

O romance também tem uma fragilidade dramática. Dudley recebe menos profundidade que Elizabeth, e parte do interesse dos encontros depende do que Blanchett acrescenta à personagem. A atriz faz o desejo de estar com ele conviver com a atenção às exigências do cargo. Um pretendente estrangeiro pode representar uma aliança útil para o país, mas também ameaça o vínculo que ela escolheu por vontade própria. Quanto mais o conselho insiste num casamento conveniente, menor parece o espaço disponível para essa relação.

Kapur é mais persuasivo ao acompanhar esse desgaste do que ao apresentar alguns dos inimigos da monarca. A concentração de ameaças em figuras muito marcadas facilita a compreensão das disputas, porém empobrece certas diferenças entre convicção religiosa e ambição pessoal. Norfolk, sobretudo, carrega tanta hostilidade que sua presença por vezes anuncia o perigo antes de qualquer ação. A protagonista ganha nuances que nem todos ao seu redor recebem.

Proteção tem seu preço

Francis Walsingham (Geoffrey Rush) entra nesse ambiente com atenção às ameaças contra a vida da soberana. Reservado e vigilante, ele procura informações que não circulam nas reuniões oficiais. Rush estabelece sua presença sem disputar espaço com Blanchett. Seu personagem observa, escolhe o que dizer e deixa os interlocutores desconfortáveis com aquilo que talvez já saiba. Para Elizabeth, contar com essa proteção significa ter acesso a uma parte da corte que as reverências escondem.

A relação entre os dois acrescenta um suspense que combina bem com o drama político. A rainha precisa de pessoas capazes de protegê-la, embora a dependência de assessores também limite sua liberdade. Cecil oferece orientação, Dudley ocupa sua intimidade e Walsingham cuida de sua segurança. Cada um reivindica uma proximidade diferente, e Elizabeth precisa estabelecer até onde essa presença poderá interferir em suas ordens.

“Elizabeth” ganha força ao preservar a pessoa dentro da soberana. Blanchett permite acompanhar o custo de manter a compostura quando quase todos têm uma recomendação, uma exigência ou um interesse a apresentar. Mesmo quando Kapur simplifica os adversários, a atriz sustenta a complexidade de uma jovem obrigada a aprender sob observação permanente. Entre uma audiência e outra, ela precisa voltar a ocupar a cadeira principal e decidir o que fazer com homens que ainda esperam decidir por ela.


Filme: Elisabeth
Diretor: Shekhar Kapur
Ano: 1998
Gênero: Biografia/Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
Leia Também