Blake (Christopher Abbott) volta à casa onde cresceu, no interior do Oregon, depois que seu pai desaparecido é declarado morto. Ele leva a mulher, Charlotte (Julia Garner), e a filha, Ginger (Matilda Firth), na esperança de recuperar a proximidade com a esposa enquanto organiza os pertences da família. Em “Lobisomem”, lançado em 2025 e dirigido por Leigh Whannell, a viagem ganha outro rumo quando uma criatura ataca os três na estrada. Ferido, Blake consegue chegar à propriedade, mas começa a apresentar sintomas que tornam a permanência ao seu lado cada vez mais perigosa.
A premissa tem a simplicidade das boas histórias de terror. Uma família isolada precisa sobreviver à noite, sem saber por quanto tempo as portas permanecerão fechadas. Whannell acrescenta uma dificuldade bastante cruel a essa situação. O pai, inicialmente responsável por proteger a mulher e a menina, passa a depender delas enquanto perde o controle do próprio corpo. Antes de assustar pela aparência da criatura, “Lobisomem” provoca aflição ao acompanhar alguém que já não consegue oferecer a segurança prometida à filha.
Uma infância marcada pelo medo
O desconforto começa muitos anos antes dessa viagem. Ainda menino, Blake acompanha o pai, Grady (Sam Jaeger), em uma caçada na floresta. O adulto conhece os perigos da região e exige obediência, mas a preocupação com a sobrevivência vem acompanhada de uma dureza que também assusta o filho. Quando os dois precisam se esconder de uma presença entre as árvores, o garoto fica cercado pelo medo do que existe lá fora e pela autoridade de quem está ao seu lado.
Esse passado ajuda a compreender o comportamento de Blake com Ginger. Ele é carinhoso, participa da vida da filha e deseja criá-la de outra maneira. Ainda assim, perde a paciência e eleva a voz quando teme que algo aconteça com ela. Abbott trabalha bem essa contradição. Há afeto em seus gestos, mas também um esforço constante para conter reações que conhece desde criança. A ameaça de repetir o pai já existe antes de qualquer ferimento.
Charlotte ocupa um lugar menos confortável nessa relação. Jornalista envolvida com o trabalho, ela tem dificuldade para participar da intimidade que marido e filha construíram. O desgaste do casamento aparece nas conversas e na distância entre os dois, embora falte um pouco mais de convivência para que esses problemas ganhem peso. A proposta de passar alguns dias no campo surge como uma tentativa compreensível de aproximação. O endereço escolhido, infelizmente, oferece mais isolamento do que descanso.
A casa deixa de ser abrigo
O ataque na estrada interrompe qualquer possibilidade de férias. Depois de alcançar a propriedade, Blake e Charlotte precisam fechar os acessos e proteger Ginger de uma criatura que permanece nas imediações. Whannell organiza o suspense em torno de elementos reconhecíveis. Uma janela permite observar a mata, mas também expõe quem se aproxima. Uma porta fechada oferece alívio até que algum ruído obrigue os moradores a conferir a resistência da madeira.
A casa fica assustadora porque exige uma vigilância impossível. Enquanto Charlotte acompanha o estado do marido, precisa prestar atenção à filha e aos movimentos do lado de fora. O espectador acaba procurando entradas junto com ela. A cada barulho, surge a dúvida sobre qual ponto da construção poderá ceder primeiro.
O ferimento de Blake acrescenta uma urgência que as barricadas não resolvem. Seu corpo apresenta alterações, os sentidos passam a responder de outra maneira e tarefas simples exigem um esforço crescente. Abbott faz dessa deterioração a parte mais angustiante de sua atuação. O sofrimento aparece na dificuldade de se mover, na expressão confusa e nas tentativas de permanecer próximo da menina sem assustá-la.
Um rosto familiar fica estranho
Whannell alcança seus melhores resultados quando aproxima o público da percepção de Blake. Sons e imagens mudam à medida que a transformação avança, comprometendo seu contato com Charlotte e Ginger. Estar no mesmo cômodo já não garante que os três consigam se comunicar. A distância entre eles cresce dentro de poucos metros.
Esse recurso dá uma dimensão dolorosa ao terror. Blake continua tentando ajudar, mas suas intenções ficam cada vez menos acessíveis à mulher. Para Charlotte, cuidar do marido exige também observar sinais de perigo. Garner transmite bem essa mistura de preocupação e cautela, sobretudo quando precisa agir sem tempo para assimilar o que está acontecendo. Sua personagem ganha força ao assumir decisões das quais depende a sobrevivência da filha.
Ginger, por sua vez, procura o pai que conhece. Matilda Firth preserva essa confiança sem transformar a criança em alguém capaz de explicar tudo aos adultos. A proximidade entre os dois torna as mudanças físicas mais difíceis de acompanhar. Um gesto que antes oferecia conforto passa a exigir atenção, e a menina precisa buscar na mãe a proteção que costumava receber dele.
O sofrimento pesa mais que as presas
A transformação de Blake causa repulsa, mas a exposição do corpo deformado nem sempre sustenta o medo criado durante a espera. Há momentos em que observar menos seria mais perturbador. Quando Whannell insiste nos detalhes da criatura, parte da inquietação dá lugar à curiosidade pela maquiagem. O homem tentando esconder o próprio sofrimento costuma ser mais assustador do que a deformação inteiramente exposta.
Também pesa a pouca profundidade concedida ao casamento antes do ataque. Abbott e Garner oferecem sinais de uma relação cansada, mas o roteiro passa depressa por questões que poderiam tornar a aproximação dos dois mais comovente. Charlotte merece mais espaço do que recebe, especialmente porque é ela quem precisa cuidar de uma criança enquanto acompanha o adoecimento do companheiro.
Apesar dessas limitações, “Lobisomem” encontra força no vínculo entre pai e filha. O medo cresce porque Ginger reconhece o afeto de Blake mesmo quando já não pode confiar em seus movimentos. Sem depender apenas de sustos, Whannell mantém essa convivência sob ameaça. Enquanto o marido perde a capacidade de ajudá-la, Charlotte precisa vigiar os acessos da casa e manter a menina perto o bastante para fugir.

