Em Woodsboro, uma pequena cidade americana, Sidney Prescott (Neve Campbell) tenta retomar a vida um ano após o assassinato da mãe, quando novos crimes colocam seus amigos em perigo. Lançado em 1996 e dirigido por Wes Craven, “Pânico” acompanha essa adolescente perseguida por alguém que usa uma máscara branca, faz telefonemas ameaçadores e conhece detalhes que um estranho não deveria saber. Para sobreviver, ela precisa desconfiar até das pessoas com quem divide seus dias.
A ameaça chega pelo telefone, um objeto tão doméstico quanto a televisão ou a geladeira. Casey Becker (Drew Barrymore) atende a uma ligação e começa a conversar com um desconhecido sobre filmes de terror. O tom parece inofensivo, daqueles que permitem prolongar o assunto enquanto se prepara alguma coisa na cozinha. Aos poucos, porém, as perguntas ganham uma intenção cruel. O interlocutor sabe onde ela está e transforma a conversa em uma situação da qual ela já não consegue sair simplesmente desligando.
Craven dá tempo para que essa mudança seja percebida. Barrymore acompanha cada etapa com uma atuação que passa da curiosidade ao desconforto sem atropelar o medo. Antes de qualquer ataque, existe a sensação desagradável de estar sendo observada dentro da própria casa. A sequência estabelece uma regra importante para quem assiste. A voz pode parecer simpática, mas isso oferece pouca garantia sobre quem está falando.
O medo chega à escola
Sidney recebe a notícia dos crimes enquanto ainda enfrenta as lembranças da morte da mãe. A escola, os amigos e o namoro deveriam ajudá-la a recuperar alguma estabilidade. Agora, esses espaços também estão tomados por comentários, suspeitas e brincadeiras de gosto duvidoso. Há quem demonstre preocupação e quem trate os assassinatos como o assunto mais interessante da semana.
Neve Campbell dá à personagem uma combinação convincente de fragilidade e firmeza. Sidney sente medo, mas também fica irritada, perde a paciência e rejeita tentativas de decidir por ela. Sua dor não ocupa todas as conversas, embora esteja presente na dificuldade de confiar e de permitir que alguém se aproxime. Essa variedade de reações faz diferença. Ela tem uma vida que deseja preservar, e o assassino começa a invadir cada parte dela.
Billy Loomis (Skeet Ulrich), seu namorado, procura manter a intimidade do casal, mas demonstra impaciência com as reservas de Sidney. Ela ainda não se sente à vontade para corresponder às expectativas dele, sobretudo quando o assunto é sexo. O incômodo entre os dois acrescenta uma dúvida ao relacionamento. Billy pode estar frustrado, pode estar escondendo alguma coisa, e Sidney precisa avaliar seus gestos enquanto lida com um perigo muito maior.
Ulrich trabalha bem essa ambiguidade. Seu jeito mistura afeto, cobrança e uma intensidade que torna difícil relaxar perto dele. Craven aproveita a proximidade do casal para deixar o espectador na mesma situação da protagonista, tentando distinguir um comportamento desagradável de um sinal de ameaça.
Uma amiga oferece abrigo
Tatum Riley (Rose McGowan) permanece ao lado de Sidney e oferece um pouco de alívio em meio às notícias. Ela conversa, acolhe e tenta impedir que a amiga fique sozinha. McGowan tem uma espontaneidade que dá vida à amizade, especialmente porque Tatum não passa o tempo inteiro falando com a solenidade de quem sabe estar num filme de terror.
As duas ainda são adolescentes. Querem companhia, reclamam dos outros e procuram alguma normalidade, mesmo quando a cidade parece ter perdido esse direito. Essa convivência torna o perigo mais próximo. O que está ameaçado inclui coisas pequenas, como dormir na casa de uma amiga ou atravessar um corredor sem pensar em quem pode estar esperando.
Dewey Riley (David Arquette), irmão de Tatum e policial da cidade, tenta proteger Sidney e ajudar na investigação. Sua boa vontade é evidente, mas a autoridade nem sempre acompanha o esforço. Arquette acerta ao deixar o personagem um pouco atrapalhado, sem torná-lo indiferente ao que acontece. Dewey quer fazer o trabalho direito e precisa lidar com jovens que nem sempre levam suas orientações a sério.
Uma repórter reabre a ferida
Gale Weathers (Courteney Cox) chega a Woodsboro interessada nos crimes e também no passado de Sidney. A jornalista contesta a versão aceita sobre o assassinato da mãe da adolescente, assunto que já havia transformado em notícia. Para Sidney, sua presença representa outra invasão, desta vez feita com perguntas, câmera e vontade de conseguir uma boa matéria.
Cox não suaviza a falta de tato de Gale. A repórter é insistente, ambiciosa e capaz de abordar uma jovem traumatizada sem muita delicadeza. Sua atuação tem uma energia que movimenta as cenas, sobretudo quando encontra resistência. Gale acredita ter razões para continuar investigando, mas sua maneira de agir dificulta qualquer aproximação com Sidney.
Essa disputa acrescenta uma camada interessante ao suspense. A protagonista precisa se proteger do assassino enquanto vê a própria história discutida por alguém que deseja publicá-la. Craven mantém a atenção nas duas mulheres, cada uma agarrada a uma versão dos acontecimentos, sem transformar a jornalista em alguém fácil de aceitar ou descartar.
Os amigos conhecem as regras
Randy Meeks (Jamie Kennedy), funcionário de uma locadora e apaixonado por terror, acredita que os filmes oferecem pistas para reconhecer o assassino. Ele comenta comportamentos, enumera regras de sobrevivência e observa os colegas com a confiança de quem passou anos se preparando para aquele assunto.
O problema é que assistir a muitas mortes na televisão não entrega um certificado de segurança. Randy fala com convicção, enquanto Stu Macher (Matthew Lillard) responde com piadas e provocações. Lillard interpreta Stu com uma agitação inconveniente, dessas que fazem alguém rir e, logo depois, se perguntar se havia motivo para tanta graça.
Craven aproveita essas conversas para brincar com os hábitos de quem assiste a terror. Os personagens sabem que certas escolhas parecem perigosas, mas continuam sujeitos à vaidade, ao desejo e à vontade de acompanhar os amigos. Conhecer as regras ajuda a discutir o risco. Segui-las exige abrir mão de coisas que eles ainda querem fazer.
A companhia não garante proteção
Uma festa na casa de Stu reúne parte do grupo durante a onda de crimes. Para os adolescentes, estar entre conhecidos oferece uma sensação de segurança, além de uma desculpa para escapar do clima pesado da cidade. As conversas continuam, a televisão ocupa a atenção e as pessoas circulam pelos cômodos.
Craven tira proveito dessa distração. Cada saída do grupo, cada porta e cada telefonema passam a exigir atenção. O suspense cresce porque ninguém consegue vigiar todos os lugares, e a familiaridade com a casa pouco ajuda quando se desconhece quem está por perto.
“Pânico” ganha força nessa combinação de irreverência e medo. As brincadeiras preservam a personalidade dos jovens, enquanto os ataques dão peso às escolhas que eles fazem. Campbell sustenta o centro da história sem precisar transformar Sidney numa heroína infalível. Ela hesita, reage e procura ajuda. Quando as garantias dos outros deixam de bastar, precisa escolher por conta própria em quem confiar e por onde tentar sair.

