Bea volta para buscar o rapaz com quem acabara de passar uma noite agradável e chega a tempo de ouvi-lo diminuí-la diante de um amigo. Ben, por sua vez, achava que tinha sido abandonado sem explicação. Esse desencontro miúdo, que duas pessoas menos vaidosas resolveriam antes do almoço, rende a Will Gluck uma viagem à Austrália e boa parte da graça de “Todos Menos Você” (2023). Há algo razoavelmente verdadeiro na disposição de Sydney Sweeney e Glen Powell para defender seus personagens mesmo quando ambos se comportam como uns imbecis. A mágoa é desproporcional ao acontecimento, mas quem já não fez um papelão para esconder que esperava ser convidado a ficar?
Gluck e a corroteirista Ilana Wolpert encontram em “Muito Barulho por Nada”, de William Shakespeare, a licença para levar essa teimosia adiante. A peça fornece o namoro alimentado pela hostilidade, as conversas ouvidas pela metade e a intromissão de gente convencida de que entende mais dos amantes do que eles próprios. A atualização dispensa reverência: os descendentes de Beatriz e Benedito têm corpos de academia, viajam de avião e precisam comparecer a um casamento em que ninguém parece obrigado a verificar o preço de coisa alguma. O interesse dessa apropriação está na permanência do ridículo. Conhecer antecipadamente o desfecho permite prestar atenção ao esforço descomunal que duas pessoas fazem para adiar uma felicidade ao alcance da mão.
O casamento é de Halle, irmã de Bea, com Claudia, amiga de Ben, interpretadas por Hadley Robinson e Alexandra Shipp. Reunida em Sydney, a parentela dispõe de tempo e dinheiro para fiscalizar a vida alheia, e o roteiro logo transforma a hospitalidade numa modalidade particularmente invasiva de aconselhamento. Os pais de Bea querem reaproximá-la do ex-noivo; Ben acompanha com um ressentimento mal disfarçado a presença de Margaret, sua antiga namorada. Fingir um relacionamento parece resolver tudo, inclusive a necessidade de explicar por que continuam tão interessados em ferir um ao outro. A partir daí, cada demonstração de intimidade comporta a desculpa de que se trata de uma encenação.
Os vexames de Glen Powell
Powell aproveita muito bem essa margem. Sua figura de galã, tão empenhada em parecer à vontade, é desmontada pelas situações em que Ben se assusta ou perde o comando do próprio corpo. Gluck gosta de expor o bonitão ao vexame e acerta ao perceber que a atratividade do ator aumenta quando ele deixa de posar. Sweeney tem uma tarefa menos agradecida: Bea precisa sustentar a irritação e, ao mesmo tempo, deixar entrever uma vida que se desviou das expectativas familiares. A hesitação da moça sobre o futuro poderia receber mais espaço. Ainda assim, há uma diferença perceptível entre o modo como enfrenta Ben em público e a atenção que lhe reserva quando acabam sozinhos, sem plateia para impressionar.
A comédia perde um pouco desse benefício quando distribui a todos os coadjuvantes a função de fabricar encontros. As manobras se tornam ostensivas, o equívoco que já poderia ter sido desfeito ganha uma prorrogação e o filme pede que aceitemos mais uma coincidência. Há momentos em que a Austrália parece contratada para substituir uma boa conversa. Mas Gluck também sabe fazer o excesso trabalhar a favor do casal. Na sequência em que Bea e Ben ficam presos a uma boia, no porto de Sydney, a paisagem deixa de ser simples decoração: os dois precisam cooperar, acalmar-se e suportar a presença um do outro sem conseguir fugir para o quarto ou para uma piada agressiva.
“Unwritten”, de Natasha Bedingfield, serve a Ben como um recurso para conter o medo e acaba emprestando ao filme uma desenvoltura que alguns diálogos procuram em vão. É engraçado ver um homem tão preocupado com a própria imagem aceitar uma canção pop como amparo. Mais adiante, quando a música contagia também os créditos, já se tornou parte da intimidade daqueles personagens e da brincadeira dos intérpretes. Gluck poderia confiar um pouco mais nessas pequenas desmoralizações e dispensar alguns empurrões do roteiro. O romance fica mais convincente quando Ben precisa ser tranquilizado e Bea, por alguns instantes, esquece que tinha vindo até ali para vencê-lo.

