Em seu “Tractatus Logico-Philosophicus”, o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) defende que o mundo jamais seria representado à perfeição por linguagem nenhuma, dada a sua vastidão, sua pluralidade, sua natureza fundada no caos. O máximo que o homem seria capaz de atingir é o que ele mesmo conseguira apreender do mundo, ideias que tocam não só o real como boa parte — para não dizer a maior parte — do imaginado e mesmo do quimérico. Em sendo assim, o mundo para Wittgenstein é um simulacro de mundo, isto é, a pálida noção que dele temos, e nisso baseia sua teoria pictórica do significado. A confusão geral dos elementos da matéria, consequentemente o fim do mundo e o apocalipse, sua nomenclatura religiosa-filosófica, continuam a ser fetiches cheios de possibilidades para cineastas simpáticos às mais diversas correntes ideológicas, e no que toca a “Chuva Ácida”, Just Philippot arruma um jeito quase original de cutucar nosso comportamento autopredatório, sabendo até onde deve ir no panfletarismo. Philippot concentra-se na tensão instintiva como única válvula de escape para as situações de agonia inestimável que cataclismos naturais provocam, sem socorrer-se de alívios cômicos ou possibilidades românticas. Há alguns deslizes, bem como muitos acertos e poucas respostas.
Já não me sinto em casa nesse mundo
O cinema apropriou-se da ideia da difícil continuidade num planeta à deriva, e esse cenário é o eixo em torno do qual o enredo gira. Não é mais tão preciso classificar histórias feito essa como ficção científica, e talvez seja uma questão de tempo, de “quando” e não de “se”, para que enfrentemos o derradeiro precipício. Enquanto isso, Philippot faz uma denúncia, até alarmista, acerca de catástrofes iminentes, sem deixar de fora tragédias íntimas de mesma dor. O dióxido de enxofre que vira ácido sulfúrico ao entrar em contato com a água da chuva não é letal, mas no roteiro assinado pelo diretor e por Yacine Badday desce furioso, corroendo tudo, madeira, metal, pele humana e a dos bichos. Antes, Philippot mostra Michal e sua filha, Selma, numa travessia hercúlea pelo vale de lágrimas que é a vida, enfrentando doenças terminais, divórcio e estigmas sociais ainda mais degradantes, até que a França derreta. Crer num horizonte que transcenda o imediato é o refúgio possível a essa ameaça de finitude galopante e vexaminosa, e aí entram os ecos do Cormac McCarthy (1933-2023) de “A Estrada” (2006), sobre a jornada de um pai e seu filho através da Terra que sobra das ruínas. Tal como McCarthy, Philippot constrói um cenário de escombros físicos e morais, onde os personagens de Guillaume Canet e Patience Munchenbach lutam para preservar não somente a vida, mas a humanidade. “Chuva Ácida” mostra que o futuro já começou — e ele é monstruoso.
