Senhor Deus dos desgraçados! Difícil ser funcionário nesta segunda-feira. Da vez primeira em que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Depois, a cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha. Venho do século passado e trago comigo todas as idades. Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem mentir. Mas o que sinto escrevo. Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso. Preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso. Essa minha secura, essa falta de sentimento, não tem ninguém que segure, vem de dentro. Vem da zona escura donde vem o que sinto. Sinto muito. Sentir é muito lento. Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem. Quero mascar, rasgar entre os dentes a pele, os ossos, o tutano do verbo, para assim versejar o âmago das coisas. Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre, nem sou triste: sou poeta. Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além. E agora, José? Quem pagará o enterro e as flores se eu morrer de amores? Vou-me embora pra Pasárgada. Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá. Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Só sei que nada sei, e o fato de saber isso me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva, etc., etc. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Será arte? Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Meu coração tem catedrais imensas, templos de priscas e longínquas eras, onde um nume de amor, em serenatas, canta a aleluia virginal das crenças. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Não discuto com o destino. O que pintar eu assino. Toma um fósforo. Acende teu cigarro. O beijo, amigo, é a véspera do escarro. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa ainda pena a tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija. Não estamos alegres, é certo, mas também, por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas. Amemos! O coração tem domicílio no peito. Comigo, a anatomia ficou louca. Sou todo coração. Todos esses que estão aí atravancando meu caminho, eles passarão… Eu passarinho.


Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.
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