José Miguel Varas tinha vinte exemplares de “Canción de Gesta” (Canção de Gesta, em tradução livre) para entregar a Pablo Neruda. O livro acabara de sair pela Quimantú. Naquela manhã de 11 de setembro de 1973, ele iria de Santiago a Isla Negra com Fernando Alegría. Levava também uma pasta com documentos sobre a multinacional americana ITT. Neruda estava interessado naqueles papéis porque preparava um artigo para o “New York Times”. Sergio Insunza iria por outro motivo. O ministro da Justiça tinha consigo documentos de Cantalao, projeto de Neruda para acolher escritores e artistas. Entre os papéis estavam os estatutos. Havia ainda planos e uma maquete.
Em Isla Negra, Matilde Urrutia, mulher do poeta, preparava o almoço para os convidados. Por volta das sete da manhã, Varas telefonou de Santiago. Havia notícias de uma sublevação militar em Valparaíso. A viagem até Isla Negra ficou cancelada. Varas trabalhava no departamento de imprensa da Televisão Nacional. Neruda costumava telefonar para ele pela manhã. Queria notícias. A doença já dificultava seus deslocamentos e algumas visitas a Isla Negra tinham se tornado menos frequentes. No fim de agosto, pedira a Varas justamente os documentos sobre a ITT. A visita foi sendo adiada até ficar marcada para o dia 11.
Depois do telefonema, Neruda e Matilde ficaram com o rádio. Salvador Allende foi para La Moneda, sede da Presidência, naquela manhã. Perto do meio-dia, aviões Hawker Hunter bombardearam o palácio. Em Isla Negra continuavam sobre a mesa os preparativos para receber gente que já não viria.
Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto nasceu em Parral em 12 de julho de 1904. Rosa Basoalto, sua mãe, era professora e morreu em setembro daquele ano. José del Carmen Reyes, o pai, trabalhava nas ferrovias. Em 1906 levou o filho para Temuco. Havia se casado com Trinidad Candia Marverde em novembro do ano anterior. Neruda a chamaria de Mamadre. Em 1920, conheceu Gabriela Mistral, que dirigia o liceu feminino da cidade e lhe apresentou a literatura russa. Naquele ano passou a assinar Pablo Neruda.
Em março de 1921, Neruda chegou a Santiago para estudar francês no Instituto Pedagógico. Foi morar numa pensão da rua Maruri, número 513. Em outubro ganhou um concurso de poesia da Federação de Estudantes do Chile com “A Canção da Festa”.
Dois anos depois, para publicar “Crepusculário”, vendeu parte dos poucos móveis que possuía. O relógio que ganhara do pai foi parar numa casa de penhores. Depois foi o traje preto. O livro saiu em 1923. Em junho do ano seguinte, a Nascimento publicou “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”.
Em 1927 conseguiu um posto consular em Rangum, na Birmânia. Nas memórias, contou que ele e um amigo procuraram a cidade num globo do Ministério das Relações Exteriores. Havia uma amassadura justamente naquela parte do mapa. Neruda partiu em junho. No ano seguinte conseguiu transferência para Colombo, no Ceilão.
Em Colombo, uma mulher tâmil ia à casa do cônsul para recolher os dejetos da latrina. Neruda contou o episódio anos depois em “Confesso que Vivi”. Escreveu que a segurou pelo pulso, levou-a até o quarto e a despiu. Durante a relação sexual, segundo o próprio relato, ela permaneceu imóvel e sem responder aos gestos dele. Depois continuou sem falar com ele. O livro seria publicado em 1974, já depois da morte do poeta.
Em 1934, Neruda estava em Madri com sua primeira mulher, María Antonieta Hagenaar, a Maruca. Em 18 de agosto nasceu Malva Marina Trinidad. O parto foi difícil e a menina tinha hidrocefalia.
Durante a Guerra Civil Espanhola, Neruda escreveu “Espanha no Coração”. Em 1938, uma edição do livro foi impressa na Catalunha, perto da frente de guerra. Soldados trabalharam na composição e na impressão. Faltava papel. Segundo o relato do editor Manuel Altolaguirre, numa fábrica abandonada voltaram a pôr o moinho em funcionamento e misturaram à pasta roupas, trapos, uma bandeira inimiga e até a camisa de um prisioneiro. O livro saiu daquele papel.
Em 1939, em Paris, Neruda recebeu outra função consular. Passou a trabalhar na seleção dos refugiados espanhóis que iriam para o Chile. O navio escolhido foi o Winnipeg, um cargueiro francês que normalmente comportava não mais que setenta passageiros. Os porões precisaram ser adaptados. Em setembro, o navio chegou a Valparaíso com mais de dois mil refugiados.
Maruca e Malva acabaram vivendo na Holanda depois da saída da Espanha. Neruda foi visitá-las ali em novembro de 1939. Malva morreu em 2 de março de 1943, aos oito anos. Neruda recebeu a notícia quando estava no México.
Neruda não desapareceu completamente da vida da filha. Há registros de remessas de dinheiro feitas por intermédio de consulados. Pouco depois do nascimento de Malva escreveu “Doenças em Minha Casa”, poema relacionado à doença da menina. Mas Maruca ficou encarregada da vida cotidiana da filha, enquanto Neruda já vivia com Delia del Carril. Em cartas daquele período, usou imagens cruéis para descrever Malva. O dinheiro enviado não transforma distância em convivência.
Em 4 de março de 1945, Neruda foi eleito senador por Tarapacá e Antofagasta. Em julho entrou oficialmente no Partido Comunista. Em janeiro de 1948 pronunciou no Senado o discurso que ficaria conhecido como “Eu Acuso”. A Corte Suprema retirou sua imunidade parlamentar em 3 de fevereiro; pouco depois veio a ordem de prisão. Neruda passou a viver escondido. Enquanto mudava de casa, continuava escrevendo “Canto Geral”. Em 1949 cruzou a cordilheira para a Argentina a cavalo, usando identidade falsa.
“Canto Geral” apareceu no México em 1950, em duas edições. Uma foi publicada pelo Comité Auspiciador e outra pela Océano. As duas traziam trabalhos de Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros. No Chile, o livro também circulou clandestinamente, apresentado na impressão como se tivesse saído na Cidade do México.
Em julho de 1952 saíram em Nápoles 44 exemplares de “Os Versos do Capitão”. O nome de Pablo Neruda não aparecia na capa. Os poemas eram ligados à relação com Matilde Urrutia, ainda mantida em segredo enquanto ele vivia com Delia. Uma carta atribuída à personagem Rosario de la Cerda apresentava os versos como obra de um antigo amante.
Em 15 de março de 1953, Neruda participou de um ato do Partido Comunista pela morte de Stalin. Escreveu o poema “Em Sua Morte”, em homenagem ao dirigente soviético. Em dezembro foi anunciado como vencedor do Prêmio Stalin da Paz e recebeu a distinção no ano seguinte.
Em 30 de setembro de 1969, o Comitê Central do Partido Comunista escolheu Neruda como candidato à Presidência do Chile. Ele percorreu o país, participou de assembleias e chegou às negociações que reuniram os partidos da Unidade Popular. Depois retirou a candidatura. Salvador Allende ficou como candidato único da coalizão.
Em 1971, Neruda recebeu o Nobel de Literatura. Em 10 de dezembro participou da cerimônia de entrega do prêmio, em Estocolmo.
Nos dias seguintes ao golpe de setembro de 1973, começaram a chegar telefonemas do exterior perguntando por Neruda. Fora do Chile circulava até a notícia de que ele já havia morrido. Estava vivo e permanecia em Isla Negra. Uma patrulha militar entrou na casa. O oficial que chegou ao quarto perguntou se havia armas. Neruda respondeu que havia muitas e indicou os livros.
Em 18 de setembro alguns amigos conseguiram visitá-lo. Traziam notícias de Santiago. Neruda passou a tarde com febre. Matilde já encontrava dificuldade até para conseguir quem fosse à casa aplicar-lhe uma injeção. Na manhã seguinte, ele deixou Isla Negra numa ambulância. Ia para Santiago.
Na Clínica Santa María, Neruda ainda trabalhava nas memórias. Homero Arce, seu secretário, datilografava os parágrafos que ele ditava da cama. Em La Chascona, sua casa em Santiago, um relógio grande do salão tinha sido desmontado peça por peça durante o saque à residência. As engrenagens ficaram espalhadas pelo piso e pelo pátio.
Na noite de 23 de setembro de 1973, Neruda morreu na Clínica Santa María. Tinha 69 anos.
Décadas depois, a morte voltou aos tribunais. Os restos de Neruda foram exumados em 2013 e, quatro anos mais tarde, exames encontraram DNA da bactéria Clostridium botulinum num molar. Em 2024 o caso foi reaberto.
Em 25 de setembro de 1973, o corpo de Neruda seguiu pelas ruas de Santiago até o Cemitério Geral. Havia militares no caminho. Alguns dos que acompanhavam o cortejo levantaram os punhos. Outros gritaram o nome de Salvador Allende. Entre as metralhadoras, começou a tocar “A Internacional”.

