Na Paris que se prepara para a Exposição Universal de 1889, Gustave Eiffel (Romain Duris) recebe a missão de criar uma construção extraordinária. Reconhecido por seu trabalho na estrutura interna da Estátua da Liberdade, o engenheiro gostaria de dedicar seus esforços ao metrô da capital francesa. O reencontro com Adrienne Bourgès (Emma Mackey), uma antiga paixão, muda seus planos e o aproxima do projeto que tornaria seu sobrenome conhecido pelo mundo. Essa é a premissa de “Eiffel”, romance histórico de 2021 dirigido por Martin Bourboulon, que acompanha a construção da torre e a retomada de um amor cercado de impedimentos.
A escolha de unir essas duas histórias tem seu encanto. Por trás do profissional respeitado, Duris apresenta um homem que sabe defender uma ideia diante de investidores, mas perde parte dessa segurança quando Adrienne está por perto. Ela, porém, está casada com Antoine de Restac (Pierre Deladonchamps), jornalista e conhecido do engenheiro. A proximidade entre os três transforma o reencontro em uma situação delicada, sobretudo porque Gustave também precisa do apoio de Antoine para conquistar simpatizantes para sua construção.
Um amor que ficou interrompido
Gustave e Adrienne tiveram um relacionamento na juventude, quando a diferença de classe pesava mais do que os sentimentos. A família dela considerava o rapaz inadequado para um casamento, e Bourboulon retorna a esse período para revelar, aos poucos, o que aconteceu entre os dois. No presente, o reconhecimento profissional de Gustave já lhe permite circular entre pessoas influentes. Essa conquista, contudo, chega tarde para resolver aquilo que ficou pendente.
Duris e Mackey dão credibilidade à atração que resiste ao tempo. Há interesse nos olhares, nas hesitações e na maneira como uma conversa aparentemente inofensiva pode ganhar intimidade. Durante uma dança, os gestos aproximam o casal enquanto as palavras preservam certa distância. São adultos tentando descobrir quanto ainda existe daquela paixão, agora sob condições que tornam qualquer avanço mais difícil.
O romance perde força quando Bourboulon prolonga o segredo da separação. As voltas ao passado interrompem situações interessantes da construção para acrescentar informações que poderiam chegar com mais fluidez. A espera pela explicação acaba recebendo mais atenção do que a convivência entre Gustave e Adrienne. Embora os atores sustentem o envolvimento, os impedimentos familiares seguem um caminho bastante conhecido, com pais abastados decidindo quem merece a mão da filha.
Antes do cartão-postal, a resistência
Quando Gustave aceita o projeto da torre, precisa convencer outras pessoas de que aquela estrutura merece existir. A reputação ajuda, mas levantar uma obra desse tamanho exige financiamento, apoio político e disposição para enfrentar críticas. O engenheiro apresenta seus desenhos a homens que querem saber onde estão colocando o dinheiro. Seu entusiasmo precisa sobreviver às contas.
Nessas passagens, “Eiffel” fica mais interessante. Duris combina orgulho profissional e impaciência sem transformar Gustave em alguém infalível. Ele acredita na construção, mas depende de decisões que escapam à sua vontade. A distância entre uma ideia ambiciosa e um canteiro em funcionamento aparece nas reuniões, nos pedidos de recursos e na necessidade de defender a proposta repetidas vezes.
Também há resistência à aparência da torre. Para parte dos parisienses, aquela quantidade de ferro ameaça a paisagem da cidade. O espectador conhece o monumento que os personagens tratam com desconfiança, e essa diferença rende uma ironia discreta. Antes de virar cenário de pedidos de casamento e fotografias de férias, a construção precisou superar gente que preferia nunca vê-la pronta.
Gustave ainda insiste que visitantes de diferentes classes sociais tenham acesso à torre. A proposta acrescenta uma questão concreta ao tamanho da obra. Além de erguer uma estrutura impressionante, ele precisa defender quem poderá frequentá-la.
O trabalho por trás do ferro
No canteiro, o entusiasmo do engenheiro passa a depender de soluções que resistam ao terreno e ao peso da construção. As fundações próximas ao Sena exigem cuidados específicos. Gustave explica o uso de estruturas metálicas estanques e ar comprimido, e acompanhar a aplicação dessas técnicas ajuda a compreender a dificuldade do trabalho sem transformar a sessão numa aula de engenharia.
Bourboulon dá atenção à montagem, aos materiais e ao esforço dos operários. O interesse nasce da passagem entre o desenho e aquilo que precisa ficar de pé. Saber que a Torre Eiffel existe não elimina a curiosidade sobre sua construção. Pelo contrário, a familiaridade com o resultado torna mais atraentes os problemas que precisaram ser resolvidos para alcançá-lo.
Os trabalhadores, por sua vez, têm preocupações que ultrapassam o prestígio do empreendimento. O cansaço e a remuneração insuficiente ameaçam a continuidade do serviço. Gustave tenta recuperar a disposição da equipe ao afirmar que a torre também pertence a quem a está erguendo. Duris empresta convicção à fala, embora o orgulho de participar de uma grande obra não pague as contas dos operários.
O romance disputa espaço com a construção
A dificuldade de “Eiffel” está na distribuição de atenção entre o canteiro e a vida amorosa do protagonista. Quando uma etapa da obra desperta curiosidade, uma lembrança do casal frequentemente interrompe o andamento. A paixão deveria acrescentar algo à compreensão de Gustave, mas a insistência em ligá-la ao monumento enfraquece o interesse pelas decisões profissionais do engenheiro.
Convém também distinguir a figura histórica da versão romântica criada para o cinema. A relação amorosa recebe liberdades ficcionais, sobretudo na associação entre Adrienne e a inspiração para a torre. A história pode ser apreciada como romance, mas essa ligação não deve ser tomada como uma explicação documental para a origem da construção.
Duris é o principal ponto de equilíbrio. Seu Gustave tem presença tanto numa reunião de financiamento quanto num encontro em que já não sabe o que dizer. Mackey oferece uma parceira capaz de sustentar o desejo e a reserva, embora Adrienne receba menos espaço para existir além da paixão do engenheiro.
“Eiffel” tem beleza, bons atores e uma construção fascinante ao seu alcance. Bourboulon consegue despertar interesse por parafusos, fundações e condições de trabalho, assuntos pouco habituais em um romance de época. A frustração vem das interrupções. Quando Gustave volta ao canteiro, há sempre um problema concreto à sua espera, e acompanhá-lo na busca por uma solução costuma ser mais envolvente do que aguardar outra revelação sobre seu passado amoroso.

