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Caroline Barr está na dedicatória de “Desça, Moisés”. William Faulkner registrou ali duas datas, 1840 e 1940, e lembrou que ela nascera na escravidão. O livro saiu em 1942. Na casa dos Faulkner, Caroline era Callie. Acompanhou a infância do escritor e, muitos anos depois, ajudou a criar Jill, filha dele e de Estelle. Quando Callie morreu, ele já tinha publicado “O Som e a Fúria”, “Enquanto Agonizo”, “Luz em Agosto” e “Absalão, Absalão!”. O velório foi na sala de Rowan Oak, a casa de Oxford que Faulkner comprara dez anos antes. Estelle vivia ali, tocava piano e pintava. Tinha dois filhos do primeiro casamento, Victoria e Malcolm. Com Faulkner, teve Alabama, morta poucos dias depois de nascer, em 1931, e Jill, nascida em 1933.

Faulkner chegou a Oxford pouco antes de completar cinco anos. Nascera em New Albany, também no Mississippi, em 25 de setembro de 1897. Antes de se fixar em Oxford, em 1902, a família morou em Ripley. William era o mais velho dos quatro filhos de Murry e Maud. O pai trabalhou na ferrovia da família e, depois de outros empregos, na universidade. Maud pintava, assim como a mãe dela, Lelia Butler. O menino começou pelo desenho e continuou desenhando quando já escrevia poemas. A literatura demoraria a lhe dar uma ocupação, e sua passagem pela universidade, onde frequentou aulas sem chegar a se formar, também seria breve.

Já havia um escritor entre os Falkner, como se grafava o sobrenome da família. O bisavô William Clark Falkner publicara “The White Rose of Memphis” (A Rosa Branca de Memphis, em tradução livre), fora coronel confederado e construíra a ferrovia na qual Murry trabalharia. Morreu a tiros em 1889, oito anos antes do nascimento do bisneto. Faulkner não o conheceu, mas aproveitou parte dessa biografia na criação do coronel John Sartoris. Para quem começava a escrever em Oxford, o assunto estava perto e tinha parentes vivos. Isso não tornava mais fácil encontrar quem o publicasse. Seu primeiro livro, “The Marble Faun” (O Fauno de Mármore, em tradução livre), uma reunião de poemas lançada em 1924, saiu com a ajuda financeira de Phil Stone, advogado da cidade que acompanhava suas leituras e seus primeiros trabalhos.

Sherwood Anderson ajudou a encontrar editor para o primeiro romance, “Paga de Soldado”, publicado em 1926. Os dois haviam convivido em Nova Orleans, onde Faulkner passou parte de 1925.

Em 1929, Faulkner se casou com Estelle e publicou “O Som e a Fúria”. Na abertura do romance, Benjy Compson acompanha um jogo de golfe através de uma cerca. Quando um jogador chama o caddie, ele se lembra de Caddy, sua irmã. Pouco depois, ao se prender num prego da cerca, revive uma ocasião em que ela o ajudara a se soltar. A narrativa passa ao passado, embora o leitor ainda mal conheça aquela família.

No encerramento do romance, Benjy grita porque a carruagem toma uma direção diferente da habitual. Quando o percurso é corrigido, se acalma. Depois de tantas perdas, Faulkner concede ao personagem esse alívio. A família permanece arruinada.

Em 1930, mesmo ano da compra de Rowan Oak, foi publicado “Enquanto Agonizo”. Os Bundren viajam pelo interior do Mississippi para enterrar o corpo de Addie em Jefferson. O caixão segue com a família, enquanto a narração passa de uma pessoa a outra. Até Addie, a morta, ganha seu capítulo. A mulher que os parentes levam para o cemitério conta o que foi viver entre eles.

A casa comprada por Faulkner estava vazia havia anos e precisava de muitos reparos. Ele fez as estantes da biblioteca e deixou, na parte inferior, compartimentos para munição. Escrevia ali, mas também no pátio e, durante o inverno, na cozinha aquecida. A publicação dos romances ainda não lhe assegurava o sustento. Vendia contos a revistas e, em 1932, começou a trabalhar para Hollywood. Estelle, os filhos e a casa faziam parte das despesas de um escritor que já havia publicado dois dos livros pelos quais seria lembrado, quase um século depois.

Naquele ano, publicou “Luz em Agosto”. No romance, Lena Grove está grávida e procura o homem que a abandonou. Joe Christmas vive atormentado pela possibilidade de ter ascendência negra. Sua origem permanece incerta, mas a suspeita basta para que seja julgado diariamente por ela. Lena, enquanto isso, continua procurando onde, com quem e como sobreviver com um filho prestes a nascer.

Em novembro de 1935, Dean, o irmão caçula de Faulkner, morreu num acidente aéreo. Pilotava um avião que o escritor lhe dera.

“Absalão, Absalão!” saiu no ano seguinte. Thomas Sutpen quer fundar uma dinastia. A ascendência negra atribuída a um de seus filhos contraria a linhagem branca que pretende estabelecer. Quentin Compson, também de “O Som e a Fúria”, procura reconstruir a história dos Sutpen. As famílias se cruzam no condado imaginário de Yoknapatawpha.

Howard Hawks se tornou um dos principais parceiros de Faulkner no cinema. O escritor participou dos roteiros de “Uma Aventura na Martinica”, de 1944, e “À beira do Abismo”, de 1946, dividindo o trabalho com outros escritores. Foi no círculo de Hawks que conheceu Meta Carpenter, com quem manteve um relacionamento amoroso durante parte do casamento com Estelle. Hollywood lhe trouxe dinheiro, trabalho e uma relação que continuaria nas cartas trocadas com Carpenter.

“The Portable Faulkner” (O Faulkner Portátil, em tradução livre) saiu em 1946, organizado pelo crítico Malcolm Cowley. A seleção incluía contos e trechos de romances que estavam fora de catálogo nos Estados Unidos.

Quatro anos depois, Jill acompanhou o pai a Estocolmo para a entrega do Nobel de Literatura. Ela tinha 17 anos. O prêmio era o de 1949, mas a Academia Sueca havia adiado a decisão, anunciada em 1950. Faulkner recebeu a distinção em dezembro, aos 53 anos, mais de duas décadas depois de publicar “O Som e a Fúria”.

São Paulo completava 400 anos quando Faulkner esteve na cidade, em 1954, para participar de um congresso internacional de escritores. Foi uma das viagens que fez com apoio do governo americano depois do Nobel. Naquele ano, publicou “Uma Fábula”, que receberia o Pulitzer e o National Book Award em 1955. Em Rowan Oak, havia escrito o planejamento do romance nas paredes do escritório. As anotações ficaram na casa.

O jornalista Russell Warren Howe o entrevistou em 1956. Publicou uma declaração na qual Faulkner se dispunha a lutar pelo Mississippi, mesmo que isso significasse atirar em negros. Faulkner alegou que a entrevista distorcia o sentido de suas declarações.

James Baldwin publicou naquele ano o ensaio “Faulkner and Desegregation” (Faulkner e a Dessegregação, em tradução livre). Faulkner defendia uma integração lenta e gradual e se opunha à intervenção federal. Pedia tempo ao discutir o fim da segregação. Para os negros, essa demora significava continuar vivendo sem os direitos de que Faulkner dispunha. O ensaio de Baldwin cobrava do romancista e intelectual público uma resposta para essa diferença.

Jill e sua família moravam na Virgínia quando Faulkner aceitou ser escritor residente na universidade do estado, em 1957. Permaneceu nessa função também em 1958. Estudantes e professores conversavam com ele sobre os romances, e a universidade gravou os encontros. Nesse período, publicou “A Cidade”. “A Mansão” sairia em 1959, completando a trilogia dos Snopes, que começara em 1940 com “O Povoado”.

“Os Desgarrados”, seu último romance, saiu em 1962, cerca de um mês antes de sua morte. Em 5 de julho, Faulkner deu entrada numa clínica em Byhalia, no Mississippi. Morreu no dia seguinte, de ataque cardíaco, aos 64 anos. O livro lhe daria o segundo Pulitzer, em 1963.

Carlos Willian Leite

Carlos Willian Leite é poeta, jornalista e editor, fundador da Revista Bula e da Bula Livros. Escreve sobre literatura, cinema, streaming e vinhos.

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