Na Polônia comunista dos anos 1980, Jan Borysewicz (Mikołaj Bukrewicz) aposta no rock para conquistar independência e construir uma carreira, apesar das cobranças familiares e da repressão política. Um dos fundadores do Lady Pank, o guitarrista tem sua história recriada em “Less of a Stranger”, drama musical de 2026 dirigido por Kristoffer Rus. Entre o desejo de formar uma banda e os problemas que leva para o palco, ele precisa lidar com uma dificuldade menos vistosa que a fama. Sair de casa não significa deixar para trás tudo o que aconteceu ali.
Rus começa com uma apresentação interrompida pela polícia. Os músicos tocam um repertório censurado, e os agentes entram em ação para fazer cumprir as ordens do governo. A cena apresenta uma boa razão para acompanhar aquele guitarrista, mesmo sem conhecer uma única canção do Lady Pank. Naquele ambiente, escolher o que tocar pode custar mais do que uma discussão com o contratante. O público, os instrumentos e a presença policial dão à abertura uma urgência que os conflitos domésticos nem sempre conseguem sustentar.
Antes da banda, a família
Depois do show, Rus volta à infância de Borysewicz e procura nas relações familiares as origens de sua rebeldia. A mãe (Kinga Preis) apoia o menino, enquanto o pai (Ireneusz Czop) mantém com ele uma convivência difícil. O interesse pela música cresce nesse espaço dividido entre incentivo e cobrança. Para o jovem, tocar oferece a possibilidade de fazer algo por escolha própria, sem depender da aprovação paterna.
Há sensibilidade nessa atenção à casa, mas também um excesso de familiaridade. O artista incompreendido, a mãe que acredita em seu talento e o pai que desaprova suas escolhas são figuras frequentes nas biografias musicais. Para que essas relações despertem curiosidade, precisam ter particularidades que ultrapassem a função de explicar o futuro astro. Em “Less of a Stranger”, as feridas familiares recebem bastante atenção, mas nem sempre tornam Borysewicz uma pessoa mais complexa. Muitas vezes, apenas reforçam o que já se sabe sobre ele.
Quando a convivência se torna insustentável, o rapaz deixa a casa. A decisão abre espaço para perseguir seus interesses, embora as perdas da família continuem interferindo em sua vida. Rus insiste nessa ligação entre sofrimento e comportamento, oferecendo uma explicação recorrente para as atitudes do protagonista. É compreensível que o passado pese. O problema surge quando quase toda escolha parece precisar voltar ao mesmo endereço.
A liberdade tem horário
Nas ruas, Borysewicz enfrenta restrições que ultrapassam as regras do pai. A Polônia retratada vive sob repressão, toque de recolher e presença militar. O desejo de tocar rock depende, portanto, de condições que o guitarrista não controla. As autoridades podem restringir sua circulação, censurar o repertório e interromper uma apresentação.
Esse contexto poderia render as passagens mais interessantes da história. Um músico tentando trabalhar em um país que vigia suas escolhas oferece conflitos bastante específicos. Rus, porém, dedica mais tempo às dores particulares de Borysewicz do que aos efeitos dessa vigilância sobre seu cotidiano. Depois da abertura, a pressão política perde espaço. A ambientação permanece reconhecível, mas falta acompanhar melhor o que o protagonista precisa fazer para continuar tocando.
A relação com a religião sofre de uma limitação parecida. Uma experiência traumática na infância e as falas do músico sobre Deus sugerem uma questão importante para ele. O assunto, entretanto, recebe pouco desenvolvimento. A revolta fica registrada, sem que seja possível conhecer muito além dela. Entre a autoridade religiosa, a paterna e a policial, o rapaz tem várias razões para resistir, mas suas reações acabam se parecendo demais.
O sonho precisa de parceiros
O projeto do Lady Pank dá a Borysewicz uma oportunidade de transformar entusiasmo em trabalho. A guitarra deixa de ser apenas um interesse que provoca discussões familiares e passa a fazer parte de uma atividade compartilhada. Para conquistar espaço, ele precisa tocar com outras pessoas, assumir compromissos e sustentar uma convivência que sua busca por independência pode dificultar.
Nesse ponto, seria valioso conhecer melhor o músico fora do papel de filho ferido. O talento, as referências e a participação na banda oferecem caminhos para isso. Rus prefere, contudo, retornar com frequência aos problemas pessoais. A carreira avança cercada por situações conhecidas de outras cinebiografias, com ambição, conquistas e desgaste. A história particular do fundador do Lady Pank acaba perdendo espaço para uma sucessão de etapas que o espectador reconhece antes de elas acontecerem.
As músicas ajudam a recuperar parte desse interesse. Para quem nunca ouviu a banda, as apresentações oferecem contato com um repertório importante para o público polonês. O rock americano também aparece e aproxima o espectador das referências que alimentam o desejo do guitarrista. A escolha tem um efeito curioso. As canções estrangeiras, mais familiares, podem chamar mais atenção do que aquelas que deveriam apresentar a personalidade do Lady Pank.
Um astro ainda pouco conhecido
“Less of a Stranger” tem uma história que merece ser contada, especialmente para quem conhece pouco da música produzida na Polônia. O encontro entre rock, censura e conflitos familiares oferece material suficiente para uma biografia envolvente. Falta a Rus dar a cada um desses aspectos o tempo necessário, sem depender tanto das convenções do gênero.
A insistência nas dores da infância torna o protagonista acessível, mas limita a descoberta do artista adulto. O espectador acompanha um homem que quer viver da guitarra e sofre com aquilo que não consegue deixar para trás. Conhece menos, porém, das escolhas musicais e das relações profissionais que poderiam distingui-lo de tantos outros astros retratados no cinema.
Borysewicz desperta curiosidade, e o Lady Pank oferece boas razões para procurar seus discos depois da sessão. Dentro de “Less of a Stranger”, entretanto, o guitarrista passa tempo demais tentando responder às cobranças do passado. Quando finalmente tem uma banda e um público diante de si, ainda precisa dividir o palco com os problemas de casa.

