Depois de dez anos em Londres, Rona (Saoirse Ronan), de 29 anos, volta às Ilhas Órcades, na Escócia, para tentar permanecer sóbria. O alcoolismo comprometeu seus relacionamentos e tornou a vida na capital inglesa insustentável. Na terra onde cresceu, ela procura uma rotina que consiga cumprir, embora o reencontro com a família também traga dificuldades. Essa é a história de “De Volta ao Mar”, drama de 2024 dirigido por Nora Fingscheidt e adaptado do livro de memórias de Amy Liptrot.
O retorno tem algo de familiar para quem já precisou pedir ajuda depois de insistir que daria conta sozinho. Rona chega com o desejo de melhorar, mas também com vergonha, irritação e saudade de uma vida que lhe fez mal. Londres lhe ofereceu liberdade, festas e um relacionamento amoroso. A bebida passou a ocupar espaço demais nessa experiência, até prejudicar sua capacidade de cuidar de si e das pessoas próximas. Voltar para casa significa admitir que seus planos para a vida adulta não deram certo.
O amor desgastado pela bebida
Daynin (Paapa Essiedu), o namorado de Rona em Londres, participa das lembranças desse período. Existe carinho entre os dois, mas a convivência sofre com os excessos dela. Ele tenta estar presente, enquanto a jovem insiste em comportamentos que tornam essa proximidade cada vez mais difícil. Essiedu interpreta bem o cansaço de alguém que deseja ajudar e também precisa se proteger. A relação perde confiança à medida que a bebida interfere no que eles poderiam construir juntos.
Ronan dá à personagem uma humanidade que resiste até aos seus gestos mais desagradáveis. Rona pode ser afetuosa, divertida e difícil de suportar. A atriz preserva essas diferenças sem pedir que o espectador desculpe tudo. Seu trabalho permite acompanhar uma mulher que sente falta da euforia das festas, mesmo sabendo o preço que pagou por ela. Essa contradição torna a tentativa de ficar sóbria mais dolorosa, porque abandonar o álcool também exige abrir mão de experiências às quais ela associava prazer e companhia.
Uma casa cheia de preocupações
Nas Órcades, Rona reencontra a mãe, Annie (Saskia Reeves), que recorre à religião para lidar com as dificuldades familiares. A fé oferece amparo a Annie, mas suas convicções nem sempre correspondem ao tipo de ajuda de que a filha precisa. As duas querem se aproximar e esbarram nessa diferença. Reeves interpreta a mãe com um misto de dedicação e desgaste, sem transformá-la numa presença autoritária por conveniência. Há afeto naquela casa, embora algumas conversas deixem Rona ainda mais sozinha.
O pai, Andrew (Stephen Dillane), convive com transtorno bipolar. A relação entre eles reúne carinho e lembranças difíceis, acrescentando outra preocupação ao retorno. A jovem precisa cuidar da própria dependência enquanto se aproxima de um homem que também necessita de apoio. Dillane dá delicadeza a esse vínculo e preserva o lugar do pai na vida da filha. A família acolhe Rona, mas chega a esse reencontro com problemas que já existiam antes de sua partida para Londres.
As lembranças interrompem o presente
Fingscheidt alterna a vida nas ilhas com acontecimentos de Londres, sem organizar tudo em uma sequência cronológica. O espectador precisa prestar atenção para reconhecer os períodos e acompanhar as relações. Essa escolha combina com a experiência de Rona, que tenta viver o presente enquanto continua cercada pelo que aconteceu. Uma lembrança da bebida ou do namorado interrompe a aparente tranquilidade escocesa e devolve à jovem um sofrimento que a distância não apagou.
A montagem, porém, insiste algumas vezes em informações que já foram compreendidas. Certas passagens prolongam o desgaste em Londres quando seria mais interessante permanecer nas dificuldades da nova rotina. O excesso de fragmentos enfraquece a proximidade com Rona em alguns trechos. A diretora recupera essa proximidade quando acompanha uma conversa familiar ou uma atividade que exige atenção. Nessas situações, a personagem precisa lidar com alguém ou cumprir uma tarefa, e o esforço para atravessar o dia ganha contornos mais precisos.
Um compromisso fora de casa
O trabalho de procurar aves nas Órcades oferece à protagonista uma ocupação que depende de paciência e escuta. Ela precisa sair, observar o ambiente e esperar por sinais que podem demorar a aparecer. É uma atividade modesta, mas exige que sua atenção se volte para algo além da vontade de beber. Fingscheidt aproveita bem esse compromisso para acompanhar a recuperação sem acrescentar uma grande conquista a cada avanço. Rona passa a ter um motivo para sair de casa e um trabalho ao qual dedicar suas horas.
As caminhadas e o contato com o mar gelado também dão espaço a outras sensações. A paisagem escocesa é bonita, mas Ronan mantém visível o desconforto da personagem, mesmo nos momentos em que seria fácil transformar tudo numa promessa de bem-estar. O vento, a água e o silêncio não apagam os danos deixados pelo álcool. Eles passam a fazer parte de uma rotina na qual Rona procura permanecer sóbria.
“De Volta ao Mar” foca nessa atenção aos dias que exigem esforço sem oferecer recompensa extraordinária. Algumas associações entre a natureza e a recuperação recebem mais insistência do que precisariam. Ainda assim, Ronan sustenta o interesse por uma mulher que tenta voltar a cuidar de si depois de perder o controle de boa parte da vida. Quando Rona sai para observar as aves, há um compromisso fora de casa e algumas horas que ela precisa atravessar sem beber.

