No século 19, Friedrich Nietzsche (1844-1900) matou Deus. Evidentemente, essa é apenas mais uma das tantas provocações do filósofo alemão, um pessimista bastante peculiar, um pessimista dionisíaco, que enxergava o sofrimento como parte indissociável da jornada do homem, no qual residia a força mesma para vencê-lo. Nietzsche não ousou confrontar o cânone teológico ao fazer tal declaração, mas alertar para a perda de valor e significado da experiência humana com o transcendente, repelido e até ignorado pelas cabeças pensantes de seu tempo. Martin Heidegger, por seu turno, (1889-1976) argumenta que toda obra de ficção é autobiográfica, e em John Steinbeck (1902-1968) não é diferente. Iconoclástico como era de sua natureza, Steinbeck foi mais longe do que imaginaram, e com “A Leste do Éden” deixa claro tê-lo merecido. A história de uma dupla de meios-irmãos do Vale de Salinas, na costa central da Califórnia, nas últimas décadas do século 19 e nas primeiras do século 20 é um retrato intimista do que a América foi e do que dedicou-se a continuar sendo, uma potência bélica e econômica onde uns são muito mais iguais que outros tantos. Zoe Kazan volta ao romance homônimo publicado em 1952 prezando pela fidelidade à pena do autor, e Laure de Clermont-Tonnerre e Garth Davis imprimem-lhe vida conduzindo um elenco afiado, que une crueza e lirismo.
Meu ódio será sua herança
A diferença que Cyrus Trask faz entre os filhos é concreta. Adam e Charles passam a infância disputando a aprovação do pai, e, mais tarde, com a partida de Adam para o Exército, vivem a diáspora súbita e violenta que atropela a razão. Os anos correm, eles se reencontram e tocam juntos a herdade da família depois que Alice, a mãe de Charles, e o pai deles morrem, e então também os dois sentem o peso dos costumes e procuram uma esposa digna que lhes dê filhos. Charles não acha a mulher ideal, mas Adam casa-se com Cathy — e logo percebe que cometeu um grande erro. O nascimento dos gêmeos Caleb e Aron marca a despedida de Cathy, que volta à cena numa conjuntura quase trágica, e se no primeiro ato Adam e Charles eram capazes de minimizar suas diferenças, agora é tudo ressentimento e fúria insuperável. Clermont-Tonnerre e Davis são hábeis em fazer de um drama de família especialmente obscuro a crônica da falência moral genérica pretendida por Steinbeck, decerto guiando-se por “Vidas Amargas” (1955), de Elia Kazan (1909-2003), avô de Zoe. A parceria entre Christopher Abbott e Mike Faist, aos quais depois se junta Florence Pugh, sempre ótima, remete ao otimismo sem marketing de Steinbeck, um homem que fez do timshel, o livre-arbítrio do “Gênesis”, seu deus.

