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Na Nova York dos anos 1970, um jovem ligado à máfia tenta proteger um amigo endividado enquanto busca conquistar a confiança do tio criminoso.

Em “Caminhos Perigosos”, Martin Scorsese acompanha um grupo de pequenos criminosos de Little Italy, bairro nova-iorquino onde amizades, negócios e disputas financeiras se misturam diariamente. Estrelado por Harvey Keitel e Robert De Niro, o drama de 1973 apresenta um homem dividido entre a religião, o relacionamento amoroso e a fidelidade a um amigo que parece determinado a arruinar a própria vida. Entre cobranças de dívidas, encontros em bares e conflitos familiares, Scorsese retrata uma juventude que sonha em prosperar, mas dificilmente consegue abandonar as ruas onde cresceu.

O jovem mafioso que tenta salvar todo mundo

Charlie (Harvey Keitel) trabalha para o tio Giovanni (Cesare Danova), um mafioso respeitado em Little Italy, tradicional bairro italiano de Nova York. Sua rotina envolve cobrar dívidas, frequentar estabelecimentos ligados aos negócios da família e conquistar a confiança dos homens que controlam as atividades criminosas da região. Em “Caminhos Perigosos” (1973), dirigido por Martin Scorsese, Charlie acredita que está perto de assumir responsabilidades maiores, possivelmente administrando um restaurante. Para isso, precisa demonstrar maturidade, discrição e respeito às orientações do tio. O problema é que sua vida pessoal oferece motivos suficientes para Giovanni duvidar dessas qualidades.

Um deles atende pelo nome de Johnny Boy (Robert De Niro), jovem irresponsável que acumula dívidas, provoca os conhecidos e parece possuir uma capacidade extraordinária de transformar pequenos problemas em situações perigosas. Charlie é seu amigo de longa data e insiste em protegê-lo, mesmo quando todos ao redor recomendam que mantenha distância. A relação compromete sua reputação entre os criminosos locais, especialmente porque Johnny Boy deve dinheiro a Michael (Richard Romanus), um agiota que já perdeu a paciência com as sucessivas promessas de pagamento.

Michael deseja receber o que lhe pertence. Johnny Boy prefere gastar, frequentar bares e agir com uma despreocupação quase ofensiva. Charlie assume a ingrata função de intermediário, tentando convencer o credor a conceder mais tempo e o amigo a demonstrar um mínimo de responsabilidade. Naturalmente, nenhum dos dois facilita seu trabalho.

Um romance que a família desaprova

Enquanto administra os problemas de Johnny Boy, Charlie mantém um relacionamento com Teresa (Amy Robinson), prima do amigo. Ela tem epilepsia e deseja construir uma vida longe das restrições impostas pelo ambiente familiar. Giovanni, entretanto, desaprova o namoro por causa da condição de saúde da jovem e considera a relação prejudicial ao futuro profissional do sobrinho.

Charlie gosta de Teresa, mas hesita em assumir publicamente o compromisso. Sabe que contrariar Giovanni pode comprometer sua ascensão dentro dos negócios da família, dos quais depende financeiramente. Teresa percebe essa resistência e demonstra insatisfação com a possibilidade de continuar escondida para preservar as conveniências do namorado.

A personagem oferece um contraste interessante aos homens que frequentam os bares de Little Italy. Enquanto eles discutem dívidas, reputação e pequenas demonstrações de autoridade, Teresa manifesta um desejo bastante razoável de independência. Sua expectativa de deixar o bairro, entretanto, depende de Charlie tomar uma decisão que ele insiste em adiar.

A religião e os negócios criminosos

A formação católica de Charlie ocupa um espaço importante em seu comportamento. O jovem frequenta a igreja, teme as consequências dos próprios pecados e procura alguma maneira de conciliar suas convicções religiosas com a profissão que escolheu. Há uma contradição permanente em sua rotina. Ele trabalha para criminosos, participa de cobranças e convive com homens violentos, mas demonstra preocupação genuína com a possibilidade de estar agindo de maneira moralmente condenável.

Parte dessa inquietação explica sua dedicação a Johnny Boy. Charlie acredita que ajudar o amigo, mesmo diante de tantos erros, pode representar uma forma de compensar suas próprias faltas. O problema é que Johnny Boy demonstra pouquíssimo interesse em colaborar com esse projeto de redenção.

Robert De Niro interpreta o personagem com uma irreverência que mistura infantilidade, arrogância e uma boa dose de insolência. Suas entradas nos bares costumam trazer algum problema novo. Fala demais, provoca quem deveria respeitar e parece incapaz de reconhecer uma ameaça, mesmo quando ela está sentada à sua frente cobrando dinheiro.

Harvey Keitel trabalha numa frequência diferente. Seu Charlie observa, hesita e procura conter os excessos do amigo, embora também tenha interesse em prosperar dentro da organização criminosa do tio. Essa diferença de comportamento sustenta boa parte da relação entre os protagonistas. Johnny Boy cria dificuldades que Charlie tenta resolver, e ambos permanecem ligados por uma amizade que já começa a cobrar um preço elevado.

As dívidas começam a ficar perigosas

O bar administrado por Tony (David Proval) funciona como ponto de encontro do grupo. Ali, os amigos bebem, conversam sobre mulheres, discutem negócios e convivem com homens que possuem maneiras bastante particulares de resolver desentendimentos. Michael também frequenta esse ambiente, onde procura receber os valores emprestados a Johnny Boy.

Scorsese acompanha essa convivência de perto, interessado nas conversas aparentemente banais que revelam a maneira pela qual cada personagem ocupa seu espaço. As provocações de Johnny Boy podem parecer divertidas entre amigos, mas assumem outra gravidade quando envolvem um credor disposto a exigir respeito.

O suspense cresce à medida que Michael perde a paciência. Charlie procura garantir que o pagamento seja realizado, enquanto Johnny Boy continua acumulando atitudes que dificultam qualquer entendimento. A situação preocupa também Giovanni, que desaprova a insistência do sobrinho em se envolver nos problemas de alguém tão pouco confiável.

Charlie passa a enfrentar um dilema cada vez mais delicado. Proteger Johnny Boy significa arriscar sua reputação e contrariar os homens dos quais depende profissionalmente. Abandoná-lo, por outro lado, significaria admitir que sua lealdade possui limites, algo especialmente difícil para quem associa amizade a uma obrigação moral.

O desejo de abandonar Little Italy

A possibilidade de deixar o bairro começa a ganhar importância para Charlie e Teresa. Brooklyn surge como alternativa para uma vida distante das imposições familiares e dos problemas que acompanham Johnny Boy. Entretanto, partir exige abandonar relações construídas durante anos e enfrentar compromissos que continuam pendentes.

Scorsese retrata esse universo sem transformar seus personagens em grandes chefes do crime. Charlie e seus conhecidos ocupam uma posição modesta dentro da criminalidade organizada. Sonham com estabelecimentos próprios, algum dinheiro e reconhecimento entre os homens do bairro. São ambições pequenas diante dos riscos que aceitam correr para realizá-las.

Lançado três anos antes de “Taxi Driver” (1976), “Caminhos Perigosos” também representa um momento importante na parceria entre Martin Scorsese e Robert De Niro. O diretor já demonstra interesse pelas contradições de personagens que convivem com a violência, carregam fortes convicções pessoais e frequentemente agem contra os próprios interesses.

Há certa melancolia na maneira como Charlie insiste em cuidar dos outros enquanto posterga suas escolhas. Teresa espera que ele assuma o relacionamento, Giovanni exige disciplina e Johnny Boy continua precisando de dinheiro e proteção. Entre uma cobrança e outra, o jovem percebe que seu futuro profissional depende de pessoas cujas expectativas dificilmente conseguirá satisfazer simultaneamente. A permanência em Little Italy fica cada vez mais arriscada, sobretudo porque Michael ainda tem uma dívida a receber e Johnny Boy continua sem demonstrar disposição para pagá-la.


Filme: Caminhos Perigosos
Diretor: Martin Scorsese
Ano: 1973
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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