Com Ativos e Passivos, Beto Silva, o lendário Seu Caceta, chega à crônica de número 200 publicada na Revista Bula. Beto Silva é ídolo de uma geração.
É uma marca que diz alguma coisa sobre permanência, mas também sobre identidade. Ao longo desses textos, Beto fez da política, do comportamento, do sexo, do dinheiro e das pequenas contradições do cotidiano brasileiro — e carioca — um território aguçado para o humor, que raramente aceita as coisas pelo valor de face.
Na crônica de número 200, mantém exatamente a mesma postura.
Sexo, política e corrupção aparecem de novo. Mas, em Beto, o melhor quase sempre está no que seus personagens dizem quando imaginam estar apenas conversando.
O político foi chamado para uma entrevista num podcast desses que gosta de falar de sexo abertamente. Ele topou, não sabia muito bem do que se tratava, mas lhe disseram que a audiência era boa e político faz qualquer negócio por uma audiência.
Assim que o podcast começou, o jovem entrevistador já saiu mandando:
— Você sabe que nesse podcast a gente fala de sacanagem, certo?
— Ouvi dizer. Por mim tá tranquilo — o político respondeu com um sorrisinho maroto.
— Posso perguntar qualquer coisa, qualquer sacanagem?
— Pode mandar!
— Então vamos logo começar com uma pergunta forte. Eu quero saber: o senhor é ativo ou passivo?
— Ah, depende. Às vezes eu sou ativo, às vezes eu sou passivo.
— Olha só! Começamos bem! Ele admite que é bissexual?
— Não, eu não sou bissexual. Eu não sabia que você estava falando de sexo. Você falou que o podcast era sobre sacanagem, então eu achei que sua pergunta era sobre política.
— Mas como é que se é ativo ou passivo na política?
— Ah, tradicionalmente, ativo é quem corrompe e passivo, quem é corrompido, entendeu?
— Tradicionalmente? — o jovem do podcast perguntou.
— Sim, porque você sabe que a corrupção é tradicional no nosso país, algo quase cultural, como o samba, a caipirinha, o brigadeiro e a nomeação de parentes para cargos públicos.
— Então, nessa área, assim como no sexo, também tem ativo e passivo?
— Tem ativo, tem passivo, tem cara que era ativo e virou passivo, passivo que virou ativo, tem até quem acumula, é ativo e passivo ao mesmo tempo.
— Como é possível ser ativo e passivo ao mesmo tempo? Só se tiver mais gente na relação.
— Ah, gente é o que não falta pra participar das sacanagens. Aliás, quase nunca as relações são com o mesmo parceiro, tem muita troca de parceiro.
— O senhor já fez troca-troca?
— Demais! Toda hora a gente está trocando de partido, trocando de ideais, trocando de negociata. Difícil é encontrar na política quem não faz troca-troca!
— Caraca! E eu que achava que o sexo é que era um assunto complicado!
O número 200
Beto Silva chegou à Bula com aquilo que uma redação, aquilo que normalmente quem edita, pode acolher, mexer aqui e ali, publicar, mas dificilmente consegue criar: uma voz própria.
Sexo, política, comportamento, corrupção, vaidade e linguagem fazem parte da rotina de seus textos.
Chegar à crônica 200 poderia render placa, busto, discurso e homenagem. Melhor evitar.
Beto certamente desconfiaria da cerimônia.
E ainda poderia usá-la na crônica seguinte.
Revista Bula

