“Adão Negro” talvez seja o filme de super-heróis mais estranho que a DC já produziu, e esta é a sua grande qualidade. Jaume Collet-Serra apresenta esse carrossel de esquisitices desvendando a alma de um guerreiro de origem nobre que não se resigna à miséria e à submissão de seu clã e reencarna cinquenta séculos depois, pela força da justiça — ou do que ele entende por justiça. Teth-Adam passaria longe de qualquer majestade não fosse o carisma de Dwayne “The Rock” Johnson, intuitivo e mesmo surpreendente quando em papéis nebulosos. Os roteiristas Rory Haines, Sohrab Noshirvani e Adam Sztykiel colocam o personagem-título na pele de um messias diabólico, um rei-mendigo, como um de nós. Eis sua beleza quase oculta.
Éden decaído
Em 2600 a.C., Kahndaq, um reino hoje desconhecido em algum lugar no Oriente Médio, torna-se a nova terra prometida. Ultrajado, seu povo cultua um homem santo, até sua autoridade ser alvo de desconfiança e ele vencer o tempo para punir os infiéis. Collet-Serra repete a carpintaria de seu ótimo “Águas Rasas” (2016), um “Tubarão” revisitado, mas com personalidade o bastante para escapar das comparações com o clássico levado à tela por Steven Spielberg em 1975. Acham-se em “Adão Negro”, por outro lado, inspirações emprestadas de ninguém menos que Sérgio Leone (1929-1989) de “Por Um Punhado de Dólares” (1964), adaptação de “Yojimbo” (1961), dirigido por Akira Kurosawa (1910-1998). Aqui, como na mexicana San Miguel idealizada por Leone, a lei acovarda-se diante dos interesses escusos de figuras como o caubói sem nome vivido por Clint Eastwood. Ao flertar com a zona cinzenta que separa mocinhos de vilões, The Rock chega muito perto de Eastwood.
Músculos e cérebro
Teth-Adam deixa a sepultura incorporando o milagre que sua gente não pôde viver, maldição para os descendentes de quem teve a audácia de usurpar Kahndaq. A fotografia de Lawrence Sher e os cenários virtuais antecedem os enfrentamentos de Adão Negro e Sabbac, com Marwan Kenzari cortando todas as bolas que o protagonista levanta. As tertúlias filosóficas do Doutor Destino de Pierce Brosnan respondem pela sabedoria que enredos assim costumam guardar, painel futurista de um passado eterno. A baixa arrecadação do filme (cerca de 393 milhões de dólares, pouco para os padrões do gênero) e a péssima recepção da crítica levaram a Warner Bros. a abortar o lançamento de um segundo longa. The Rock disse não concordar com a decisão. Ele não é o único.

