Filme nenhum é capaz de reproduzir com toda a fidedignidade o desespero que se abate sobre cidadãos comuns após a debacle das finanças, seja em que cenário for. A crise que chacoalhou o cenário econômico mundial em 2008, por exemplo, foi escrutinada com rigor científico invulgar por “Trabalho Interno” (2010), vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2011. Dirigido por Charles Ferguson, o filme se estende sobre os efeitos práticos da crise de 2008, valendo-se de pesquisas, análises acadêmicas e entrevistas com personalidades, jornalistas e políticos, todos com muito o que dizer sobre o episódio. Na ficção, coube, entre outros, a J.C. Chandor e seu pragmatismo explicar o que levou milhões de americanos de classe média baixa a adquirir imóveis cujas prestações sabiam que não poderiam honrar, tragédia anunciada para muitos, mas também dinheiro fácil para poucos. Com “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, Chandor faz uma consagradora estreia na direção de longas ao resgatar os momentos que antecedem um dos maiores cataclismos financeiros da História depois da Grande Depressão, provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, a 24 de outubro de 1929. E em casos assim, por óbvio, sempre existem personagens fascinantes.
Compram-se ideologias
O mercado imobiliário está ruindo, mas Eric não se dá conta. Analista sênior de uma empresa de investimentos de risco, ele amarrou uma corda no próprio pescoço ao conduzir negócios cujos ganhos exorbitantes foram deixando um rastro de suspeita, mas quer redimir-se de algum jeito — não com seus chefes, mas com suas vítimas. Antes de deixar o escritório, entrega um arquivo para Peter, um colega mais jovem que manteve seu emprego, e agora é só questão de tempo até o mundo ver as lambanças de Wall Street. Numa tentativa desesperada de minimizar os danos, John Tuld, o executivo-chefe, chega ao prédio de helicóptero e manda os funcionários venderem os ativos podres a toque de caixa, antecipando-se ao falatório, e os clientes que fiquem com o prejuízo. Num texto que faz jus à indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original, Chandor põe na boca de Stanley Tucci, Zachary Quinto e Jeremy Irons diálogos que galvanizam a tensão de vidas que só têm alguma relevância enquanto se traduzem em lucro para o sistema. Dezoito anos mais tarde, um país ao sul do continente por pouco livrou-se de uma avalanche de fraudes e de um rombo bilionário, mas vive um terremoto institucional nunca visto. Essa história também dá um filme.

