Ao contrário do que reza o senso comum, casamentos podem, sim, vencer o inexorável tempo mantidos por um somente dos cônjuges. Precisamente isso é o que se vê — embora com disfarces ardilosos — em “Refúgio de Inverno”, a história de um casal que chega a uma idade provecta tendo apenas um ao outro, caminhando entre prazeres momentâneos e uma angústia que jamais se esgota. Sobrepondo elucubrações acerca das falsas garantias da vida a dois, de carreiras exitosas e até do amor, esse fogo que arde sem se ver e só parece conservar-se aceso eternamente, Polly Findlay tece um drama de família copioso, sob cujas camadas fervem rancores atávicos. Desde a primeira sequência, a diretora dá uma ou outra pista acerca da tensão constante a rondar Stella e Gerry Gilmore depois que uma questão mal resolvida do passado rompe o gelo. Findlay leva o enredo por um emaranhado de lembranças, deixando que aflorem de uma única vez os sentimentos mais contraditórios dos protagonistas, pendendo para um e para a outra até um lance decisivo perto do desfecho.
Gelo na alma
Nos anos 1970, Stella e Gerry trocaram Belfast por Glasgow, nas Terras Baixas da Escócia, fugindo dos Troubles, os enfrentamentos de fundo político e sectário na Irlanda do Norte em torno do estatuto político do território. Antes, eles viveram um trauma ligado às hostilidades entre católicos e protestantes enquanto Stella esperava Michael, o filho único, cena tão breve quanto arrasadora que explica parte das divergências deles, uma devota e um agnóstico, à qual Findlay volta a certas alturas. Em casa depois da missa de Natal, ela guarda num envelope duas passagens para Amsterdã, talvez preparando uma segunda lua de mel, mas o que se vai assistir é justamente o oposto. Baseado em “Midwinter Break” (“recesso de meio de inverno”, em tradução literal; 2017), romance do irlandês Bernard MacLaverty, o roteiro de Bernard MacLaverty e Nick Payne devassa os sentimentos ocultos de Stella, até que se começa a achar que alguma coisa vai mal na relação com Gerry. Ela parece encantada com a possibilidade de viver num antigo convento, fala sobre suas intenções ao marido e o mal-estar impera.
O limite do amor
A diretora sabe tirar de seu compacto elenco a justa dose de leveza e fúria, infundindo em nós a sincera vontade de compreender a razão de Stella de jogar tudo para o alto e refazer-se. Existe uma promessa que ela pensa ainda não ter cumprido, mas ninguém em pleno gozo de suas faculdades mentais ignora que Gerry sofre — apesar de ele nunca ter se esforçado para curar-se do alcoolismo, no máximo para que sua esposa não o notasse, nem se aborrecesse. Dois dos atores mais versáteis do cinema hoje, Lesley Manville e Ciarán Hinds tornam o longa muito melhor do que aparentemente é, e uma cena entre Manville e Niamh Cusack, na pele de uma moradora do tal convento, é lirismo puro. “Refúgio de Inverno” é um alento para os que fazem uma escolha errada e grave o bastante para arruinar sua vida e a de quem está junto. Mas também um bálsamo para quem resolve começar tudo de novo, acompanhado ou não.

