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Sob a perspectiva cinematográfica e dramatúrgica, mesmo para um leigo, a série brasileira “Emergência Radioativa”, lançada em 2026, é uma produção campeã em nível mundial. A experiência de assisti-la foi tão arrebatadora que, ao dar o play no primeiro episódio, não consegui chegar ao fim de imediato. Senti um nó no estômago, respirei fundo e, sem terminar de assistir, resolvi tirar o resto daquela noite para digerir a carga emocional do que estava vendo. Por conta da rotina, foi somente alguns dias depois que consegui retomar e acompanhar a história até o final — agora com um hiperfoco ativado, consumindo todos os capítulos em um único fim de semana.

A razão desse sobressalto não foi apenas a excelência técnica da obra, mas o fato de ela tocar em uma memória muito viva e íntima. Como goianiense nascido em 1989 — apenas dois anos após o fatídico acidente com o césio-137 —, cresci com os ecos dessa tragédia ressoando fortemente na minha primeira infância. Foram vários os trabalhos escolares e estudos sobre o caso, em diferentes etapas da vida, com diferentes níveis de profundidade. O Estádio Olímpico, local para onde milhares de moradores aterrorizados foram levados para a triagem de contaminação radioativa, permanece até hoje como um colosso que não nos deixa esquecer. Enquanto isso, o terreno do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), símbolo máximo do início da tragédia, foi descontaminado e ressignificado, transformando-se no imponente Centro de Convenções de Goiânia.

Ver essa ferida exposta na tela me transportou no tempo e, acima de tudo, conectou-me profundamente com as pessoas retratadas ali. Ao observar a representação dos envolvidos no acidente, vi a mais pura essência daqueles que Chico Buarque eternizou na canção “Gente Humilde”. É um perfil de pessoa simples que ainda existe no nosso estado, em número muito menor hoje, até porque o perfil da pobreza atual é outro, mas que, durante a minha primeira infância, era preponderante. Uma gente que me despertava uma sensação semelhante à descrita por Chico: acima de tudo, pessoas boas que, a despeito de qualquer limitação de letramento ou conhecimento formal, carregavam uma sabedoria imensa e prática.

Indivíduos capazes de encontrar felicidade, erguer vidas concretas, fazer as coisas acontecerem e cuidar dos seus com profunda dignidade.

É por isso que soa de uma ignorância anacrônica quando telespectadores — talvez na tentativa de dissimular seus sentimentos reais e evitar tomar para si mais aquela dor —, abrigados pelo conforto do acesso à informação, permitem-se fazer piadas de mau gosto sobre os trabalhadores de baixa renda que tiveram a infelicidade de protagonizar o início do acidente ao retirarem um aparelho de radioterapia abandonado. Ignora-se que a tragédia ocorreu em um Brasil de quatro décadas atrás, em transição da realidade rural para a urbana e marcado por altíssimos índices de analfabetismo. Aqueles cidadãos não apenas desconheciam o símbolo internacional de risco radioativo; muitos não reconheciam símbolos escritos ou desenhados, nem sequer sabiam ler.

Para dimensionar a complexidade do que enfrentaram, basta voltarmos os olhos para os vencedores do Prêmio Nobel, Pierre e Marie Curie. No limiar do século 20, dois dos maiores intelectuais de sua época desbravaram o campo da radioatividade sem a noção total de seus riscos letais. Embora Pierre Curie tenha falecido prematuramente em um acidente nas ruas de Paris, ele já sofria de dores severas e debilidades físicas ligadas à manipulação de elementos radioativos. Marie Curie, por sua vez, morreu anos mais tarde devido a uma anemia aplástica — uma condição grave da medula óssea, provavelmente ligada a anos de exposição à radiação.

Se o perigo invisível fez vítimas até entre as mentes científicas mais brilhantes da Europa à época de seus estudos iniciais, como exigir que catadores de sucata goianos compreendessem a ameaça daquele pó azul brilhante? O paralelo é um lembrete contundente de que, diante do desconhecido, até a mais alta erudição se torna vulnerável. A distância temporal de quase um século pode tornar essa comparação estranha para alguns, mas, em um Brasil tão desigual, aqueles catadores viviam, em muitos sentidos, a realidade do século anterior — com toda a precariedade daquele “passado no presente”. Isso ocorria enquanto outros contemporâneos seus voavam de Concorde e viviam em uma realidade tão distinta que merecia ser chamada de “outro planeta”.

É exatamente essa constatação que deveria nos manter em estado de alerta nos dias de hoje. Atualmente, as maiores inteligências do nosso tempo lidam com a inteligência artificial (IA) com a mesma fascinação com que o casal Curie lidava com a radiação, sem saber ao certo todos os seus efeitos futuros. Toda a humanidade já vivencia as consequências iniciais dessa revolução tecnológica e, embora não saibamos até onde vai a real amplitude de seu poder, ela já está acontecendo. As redes sociais foram, para grande parte da população, uma das primeiras experiências cotidianas com aplicações de IA, porque os sistemas que gerenciam seus feeds utilizam, entre outras técnicas, aprendizado de máquina (machine learning), parte importante da inteligência artificial moderna.

Nós somos as cobaias desse laboratório global e, se essas aplicações de IA já mostraram o seu potencial danoso, mal podemos imaginar o que está por vir. A força dessa novíssima tecnologia já está desafiando as bases das democracias modernas. Hoje, todas as estruturas de poder estão sendo expostas, revelando sua atual e real deterioração. Um apodrecimento que, em algum grau, sempre existiu — é verdade —, mas que nunca foi tão amplamente conhecido e dissecado em praça pública, física e virtual.

Na “highway da hiperinformação”, muito vem à luz e gera uma indignação generalizada palpável — controlada? O fato é que há uma desilusão que se apodera de muitos e prepondera. E é exatamente neste momento, aparentemente caótico, que é obrigatório lembrarmos por que essas instituições atuais foram erguidas. A civilização moderna e o Estado Democrático de Direito foram forjados para nos proteger. Precisamos ter em mente como era o passado e quão infinitamente mais desafiador ele era para o cidadão comum. As conquistas e os direitos sociais, que custaram séculos de sangue e luta, não podem ser descartados simplesmente porque as instituições possuem grandes defeitos.

“Quem quer manter a ordem? Quem quer criar desordem?” Mais do que pôr abaixo todas as instituições pelo ímpeto da indignação, nosso dever histórico é pensar em como reformá-las. Sob pena de, assim como os Curie comprometeram a própria saúde sem perceber por inteiro os efeitos futuros da radiação, acabarmos implodindo séculos de construção de escudos institucionais para os indivíduos. Como diz o provérbio inglês, “don’t throw the baby out with the bathwater” (não jogue o bebê fora junto com a água do banho); ou seja, não percamos o mais precioso ao tentar limpar o que tem de ser limpo.

Se permitirmos que a revolução tecnológica destrua, de forma invisível, como uma radiação, nossas garantias democráticas, poderemos nos ver retroagindo séculos! Ao que tudo indica, mergulharemos numa releitura tenebrosa do passado, tornando-nos servos de novos e gigantescos senhores feudais da tecnologia, em um feudalismo distópico cyberpunk. Enfrentaremos uma realidade futura muito mais opressora, com um potencial de controle nunca imaginado nos nossos piores pesadelos — e nunca sequer sonhado pelo déspota mais psicopata que você seja capaz de evocar da sua memória histórica.

A verdadeira lição que tiramos de tragédias passadas e presentes é que o desconhecido exige prudência, e a ignorância cobra um preço alto. Por isso, mais do que nunca, acima de todo o ruído ensurdecedor das redes e das ruas — especialmente nesta época de eleições —, é necessário ter cautela. As instituições estão em ruínas, mas são a casa sagrada que nos abriga; se as colocarmos abaixo, o que nos protegerá da chuva?

Demolir é sempre muito mais fácil que reformar, mas a humanidade não pode ficar um segundo sem o amparo dessa casa — suas instituições democráticas nacionais e internacionais. Portanto, a única saída é reformá-las: entender a origem de seus defeitos e, em conjunto, com paciência, saná-los — fazendo valer a função precípua do Estado, que nunca foi o tão almejado lucro oligopolista das Big Techs, mas algo mais valioso que qualquer bem desta terra: o sonho, a utopia do Bem Comum.

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