Perigo embasbacar os mais jovens, mas preciso afirmar que houve um tempo — e nem faz tanto assim — em que usávamos papel para escrever. Mas o papel tal e qual conhecemos, neste formato prático, barato e acessível, é uma criação pós-industrial. Desde que a escrita se tornou uma prática, a humanidade buscava suportes para exercê-la de modo mais eficiente. Daí que por séculos a solução ideal era o pergaminho.
Tem esse nome porque foi criado ou se disseminou, não sei direito, na cidade de Pérgamo, atual Turquia. Era feito de pele de animais, geralmente cabritos ou cordeiros.
Não eram muitos os que escreviam. Nem era muito o que se escrevia. Um pergaminho era custoso. Na Idade Média, desenvolveu-se uma técnica de raspagem em que um pergaminho velho com anotações que deixavam de ser importantes podia ser completamente apagado e reciclado. Um negocião. Isso foi chamado de palimpsesto, quase uma palavra-valise do grego antigo que significa algo como “raspado para escrever de novo”.
Na segunda metade do século 20, o arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo (1934-2019), professor da Universidade de São Paulo que se comunicava com acuidade e especial elegância, passou a usar a analogia para explicar o urbanismo paulistano. “São Paulo é um palimpsesto, um imenso pergaminho cuja escrita é raspada de tempos em tempos para receber outra nova, geralmente de qualidade inferior”, costumava explicar ele, não raras vezes alisando com os dedos seu farto e emblemático bigode.
Benedito foi quem melhor traduziu em conceitos toda a monstruosidade escalafobética da evolução descontrolada e quase sempre mal planejada de São Paulo.
Filho distante há muito no degredo, tenho pensado sobre essa ideia greco-medieval-benedítica todas as vezes em que alguém comenta comigo sobre a nova praça central que foi anunciada — talvez já esteja sendo construída — na minha terra natal, Taquarituba. Refuto a pecha de um saudoso ranzinza. Caetanicamente consigo entender a força da grana que ergue e destrói coisas belas, e muitas vezes nem tão belas assim elas são. A cidade é a mesma, feito um pergaminho. E de vez em quando alguém pensa que é preciso refazer, em vez de simplesmente restaurar, recuperar, conservar, manter. As motivações específicas confesso que prefiro desconhecer.
Da primeira vez que fui a Taquarituba com minha já defunta Canon, meu pai me incentivou a empreender o curioso projeto de fotografar todos os bancos da Praça São Roque. Tenho uma pasta com essa coleção de imagens até hoje.
Não sei se os antigos bancos realmente foram ou serão removidos. Também não sei se há algum plano de preservação deles, com seus letreiros propagandeando empresas que não existem mais e que contam a história de famílias antigas da cidade, com seus sobrenomes, apelidos e números de telefone com apenas três dígitos. Se o professor Benedito fosse vivo, ligaria para ele com este achado: olha, não é só São Paulo que é palimpsesto; talvez toda a ideia de urbanidade brasileira o seja.
Mas como dói.
Em agosto de 2018, quando Taquarituba comemorava aniversário de sua fundação e eu vivia na Itália, escrevi uma crônica sentimental sobre os velhos bancos da praça. Àquela altura, não pareciam correr risco de extinção.
Há pouco mais de um mês, minha cidade natal comemorou 140 anos. Aproveito para republicar o já amarelado texto, portanto:
“Os bancos da Praça São Roque me dão saudade. Este, em especial, um capricho sobreposto a outro: a farmácia mais antiga, a empresa onomástica ao padroeiro e à praça, o farmacêutico que foi o primeiro prefeito da cidade (José Penna) e, noto agora, o número de telefone de três dígitos exatamente com os mesmos algarismos do endereço do imóvel.
“Taquarituba não me é um quadro na parede, como Itabira era para Drummond. Taquarituba me são fotos no computador, me são buscas infinitas nos Google Imagens da vida, me são lembranças de felicidades e tristezas derramadas pelas ruas de nomes cheios — Benjamin Constant, Doutor Ataliba Leonel, Quintino Bocaiúva, Marechal Floriano Peixoto, Capitão Eugênio Gabriel, Coronel João Quintino, Vidal Gomes — e de datas precisas — Nove de Julho, Vinte e Quatro de Dezembro, Sete de Setembro.
“Nesta minha vida de forasteiro, expatriado, degredado, exilado e diasporado, é com um misto de sarcasmo e nostalgia que vejo as pessoas penarem ao preencher meus dados pessoais — de carteirinha de biblioteca a carta d’identità. Local de nascimento? Taquarituba. Como? Pode soletrar? T-a-q-u-a-o quê?
“E esse nome esquisito reverbera doce em meus ouvidos, afrouxa fácil a garganta taquaritubense. Mas é uma excrescência, admitamos, mesmo nós que tanto amamos; de quem foi a estapafúrdia ideia, afinal, de transliterar para o português-brasileiro o nheengatu que, vai ver ao certo, nem era o que se falava por lá?
“É de Taquarituba que me lembro quando ouço ‘Che Sarà’. É em Taquarituba que penso quando me lembro do que aprendi. É em Taquarituba que penso toda vez que estou em um lugar extraordinário — como se pudesse fincar bandeirinhas taquaritubenses em um gigantesco jogo de ‘War’. É por Taquarituba que visto frequentemente a camisa do Beldará. É Taquarituba que quero honrar, mesmo que não consiga sempre.”

