Discover

Quando o garçom do Barrabás retirou a tampa da panela de ferro, subiu uma fumaça branca que abriu um sorrisão no rosto de cada um. A galinhada com pequi foi recebida com uma salva de palmas. Era uma iguaria de se comer ajoelhado.

— Huummm… Que cheiro delicioso…

— Parece muito saborosa. Pena que eu não sinta mais o aroma dessas gostosuras.

— Como assim, doc?

— Perdi o olfato.

— Perdeu o olfato? Caramba! Como foi isso? Covid-19?

— Não sei. Acho que não. Tive Covid três vezes, mas sempre sem sintomas. Geralmente, quando acontece a perda olfativa, ela é temporária.

— Quanto tempo sem olfato, doc?

— Seis anos.

— Que chato. Sinto muito.

— Não se preocupe. A gente se acostuma. Eu não sinto o cheiro das coisas, mas eu me lembro perfeitamente bem, só em olhar. O meu velho cérebro está treinado e nunca se esquece.

— Não percebe nem cheiro bom, nem cheiro ruim, doc?

— Nem cheiro bom, nem cheiro ruim.

— Cacete!

— Nem tanto. Tem coisas piores na vida.

— Por um lado é bom, sabia, doc? Você se livra dos maus odores da profissão. Tipo examinar uma “perereca vencida” ou um “pé chulezento”.

Todos riram do comentário chistoso.

— Não vejo a anosmia como uma vantagem.

— O que é anosmia, doc? Traduza para os pobres mortais.

— Anosmia é a perda total do olfato.

— Ah, tá…

— Os órgãos do sentido são indispensáveis para o exercício pleno da profissão médica. A visão, por exemplo, fornece informações óbvias sobre o estado de saúde de uma pessoa, tanto do ponto de vista físico quanto psíquico. Com o passar do tempo, depreende-se o que se passa na mente de uma pessoa, apenas pela leitura corporal.

— O corpo fala, né?

— Exato. E, às vezes, grita. Por meio do tato, é possível detectar se o indivíduo está febril, se o tegumento está espessado, se existe algum inchaço, abaulamento ou deformidade nalguma região do corpo, se há pontos dolorosos, etc.

— Uma vez um médico do postinho ficou batucando na minha barriga com os dedos polegares. Fiquei meio pistola com ele. Cheguei a pensar que fosse um sambista.

— A percussão digital fornece informações preciosas durante a avaliação clínica. Por meio da audição, além de escutar a história do paciente, que é uma coisa básica, é possível auscultar os seus pulmões, o coração e até mesmo o abdômen. Sem contar que o timbre da voz diz muito a respeito do humor do indivíduo.

— Quero ver agora como é que o paladar entra nessa história de exame médico.

— Graças a Deus, não entra em lugar nenhum, amigo. Ele não é usado na prática médica, graças a Deus.

Embalados pelo chope, todos riram novamente.

— E o olfato, doc?

— No caso do olfato, é possível fechar um diagnóstico ou se aproximar muito dele, apenas pelo cheiro do paciente. Determinadas infecções têm odores peculiares. Pode-se suspeitar de diabetes mellitus apenas pelo hálito da pessoa, por exemplo.

— Pelo bafo?

— Sim. Como queira.

— Minha esposa faz isso direto. Fica farejando a minha boca para saber se eu bebi muito.

— Não fale assim da sua amada. Quem fareja é animal. Convida a esposa para tomar chope com a gente. E beba menos, ora.

— O exame ginecológico é muito constrangedor, doc. Vocês deviam mudar isso, inventar outra maneira de examinar a mulherada. Será que, um dia, a gente vai entrar numa máquina e sair do outro lado com o diagnóstico e com a receita em mãos?

— Espero que não, minha amiga. Senão, eu perco o meu sustento. Na verdade, a ciência não para de evoluir. E o faz de forma muito rápida. Isso é bom. Não é por acaso que a expectativa de vida do ser humano não para de crescer. Mas eu continuo acreditando que nada vai substituir uma boa anamnese e um exame clínico criterioso. Para mim, os órgãos do sentido são tão importantes quanto os mais caros e mais modernos exames complementares de imagem.

— Tem colegas seus que não olham na cara da gente, muito menos examinam. Não sei se é por pressa, por preguiça ou por descaso.

— Fujam de médicos que não examinam. E daqueles que pedem exames demais.

— Falou e disse.

— E aí? O que acharam da galinhada?

— Uma delícia, doc. Foi uma ótima pedida. Obrigada pelo convite.

— Eu logo vi. Eu já estava comendo com os olhos. Bom apetite a todos.

— Bom apetite, doc.

Alguns dias mais tarde, a turma se reencontrou no funeral do médico. Os legistas atestaram morte acidental por inalação de gás de cozinha. O crivo do fogão fora esquecido aceso.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

Leia Também