Em 1929, o médico alemão Friedrich Ritter abandona a Europa com a companheira Dore Strauch para viver na ilha de Floreana, em Galápagos, longe de uma sociedade que considera decadente. Interpretados por Jude Law e Vanessa Kirby, os dois acreditam ter encontrado o lugar perfeito para construir uma existência guiada pelas próprias regras. A tranquilidade dura pouco. Outras pessoas descobrem aquele refúgio, atravessam o oceano com seus próprios sonhos e transformam a pequena ilha em palco de uma convivência cada vez mais hostil. Inspirado em uma história real, “Éden”, de Ron Howard, transforma essa experiência dos anos 1930 em um suspense sobre sobrevivência, vaidade e a dificuldade humana de dividir até mesmo o paraíso.
Friedrich Ritter (Jude Law) chega a Floreana disposto a romper com quase tudo o que deixou na Alemanha. Médico, intelectual e dono de opiniões rígidas, ele pretende escrever enquanto leva uma vida simples ao lado de Dore Strauch (Vanessa Kirby). A companheira também procura na ilha uma oportunidade de mudança pessoal, inclusive na esperança de melhorar sua saúde. Os dois vivem praticamente isolados, dependendo do próprio trabalho para conseguir alimento, abrigo e segurança.
A imagem de um casal europeu vivendo longe das regras convencionais acaba despertando curiosidade. A história chega aos jornais e atrai Heinz Wittmer (Daniel Brühl), que desembarca em Floreana com Margret Wittmer (Sydney Sweeney) e o filho Harry. A família não chega interessada nas teorias de Friedrich. Precisa construir uma casa, cultivar a terra e sobreviver.
Essa diferença estabelece uma das relações mais interessantes de “Éden”. Friedrich gosta da ideia de ter abandonado a civilização, mas demonstra pouco entusiasmo quando outras pessoas resolvem fazer exatamente a mesma coisa. Os Wittmer, por sua vez, aprendem a viver naquele ambiente sem pedir autorização ao homem que chegou primeiro. A ilha é grande, porém a sensação de privacidade começa a desaparecer.
Uma Baronesa chega ao paraíso
Tudo fica mais estranho com a chegada de Eloise Bosquet de Wagner Wehrhorn (Ana de Armas), uma mulher que se apresenta como Baronesa e desembarca acompanhada por Rudolf Lorenz (Felix Kammerer) e Robert Philippson (Toby Wallace). Seu plano está muito distante da vida austera imaginada pelos primeiros moradores. Eloise pretende construir um hotel de luxo em Floreana e fala sobre o projeto com uma confiança quase incompatível com aquele pedaço isolado de terra.
Ana de Armas transforma Eloise na presença mais imprevisível do grupo. A personagem gosta de atenção, sabe ocupar qualquer ambiente e trata sua chegada a uma ilha remota com a naturalidade de alguém escolhendo o melhor terreno de um novo empreendimento. Há algo divertido nessa falta de proporção entre seus desejos e a realidade ao redor, mas a graça perde espaço quando sua presença começa a interferir na rotina dos demais.
Friedrich não aceita bem a nova vizinha. Heinz deseja preservar a família. Dore observa o mundo que ela e o companheiro tentaram abandonar surgir novamente diante da porta. Aos poucos, Floreana deixa de representar liberdade e passa a concentrar pequenas disputas por terra, comida, privacidade e autoridade.
Sobreviver ocupa boa parte do dia
Ron Howard acerta quando mantém a sobrevivência ligada às tarefas mais comuns. Os habitantes precisam plantar, erguer construções, conseguir água, cuidar dos animais e lidar com a distância do continente. Uma doença simples pode se transformar em problema sério. Uma perda de mantimentos pesa muito mais quando não existe mercado na esquina. Até a relação com os vizinhos ganha outra dimensão quando todos dependem, em algum momento, de pessoas das quais talvez preferissem manter distância.
Margret Wittmer (Sydney Sweeney) representa bem esse lado menos filosófico da experiência. Ela precisa se adaptar às condições da ilha enquanto administra a vida familiar. Sydney Sweeney interpreta a personagem com uma firmeza discreta, distante da extravagância da Baronesa e da arrogância intelectual de Friedrich. Daniel Brühl segue caminho semelhante como Heinz, um homem interessado sobretudo em garantir que sua família permaneça segura.
Esse contraste também favorece Jude Law. Friedrich fala sobre humanidade e liberdade com convicção, embora sua paciência diminua sempre que alguém interfere no mundo que criou para si. O ator deixa essa contradição aparecer sem transformar o personagem em uma figura simplória. Friedrich pode ser inteligente, disciplinado e irritante quase na mesma medida.
O problema mora ao lado
“Éden” cresce quando seus personagens percebem que Floreana não ficará maior para acomodar tantos projetos particulares. Cada grupo chegou procurando alguma forma de recomeço, mas todos trouxeram consigo orgulho, ciúme, medo e desejo de controle. O isolamento não apaga essas características. Apenas elimina boa parte das distrações que poderiam escondê-las.
Dore, vivida por Vanessa Kirby, ocupa um espaço mais silencioso dentro desse grupo. Sua ligação com Friedrich carrega carinho, dependência e desgaste. Ela participou da criação daquele retiro e precisa assistir à transformação do lugar quando novos habitantes chegam. Kirby trabalha bem essa sensação de alguém que buscava paz e acaba presa a uma comunidade que nunca escolheu.
Eloise segue na direção oposta. A Baronesa deseja presença, reconhecimento e conforto. Ela não atravessa o oceano para desaparecer. Sua ideia de paraíso inclui luxo e prestígio, algo quase cômico diante das dificuldades para simplesmente manter uma casa funcionando em Floreana. Ana de Armas percebe essa contradição e faz da personagem alguém fascinante justamente por nunca parecer pequena diante de um cenário que deveria colocá-la em seu lugar.
O paraíso começa a apertar
A principal qualidade de “Éden” está nessa combinação de aventura histórica e comportamento humano. Ron Howard possui uma história real extraordinária nas mãos, mas não depende apenas da estranheza dos acontecimentos. O interesse nasce da convivência. Pessoas que viajaram milhares de quilômetros para escapar das regras da sociedade começam a criar novas regras entre si, brigando por espaço e tentando proteger aquilo que acreditam ter conquistado.
O elenco ajuda muito. Jude Law entrega um Friedrich vaidoso e obstinado. Vanessa Kirby oferece uma Dore mais contida e vulnerável. Sydney Sweeney e Daniel Brühl dão aos Wittmer uma energia ligada à sobrevivência cotidiana. Ana de Armas entra em cena com uma personagem que parece ter desembarcado em outro filme e, curiosamente, essa diferença combina com a própria história.
“Éden” também carrega uma ironia difícil de ignorar. Todos atravessam oceanos procurando liberdade, mas basta reunir algumas pessoas no mesmo pedaço de terra para surgirem hierarquias, ressentimentos e disputas. Floreana continua cercada por um mar belíssimo e distante do restante do mundo. Para aqueles moradores, porém, o vizinho passa a ser uma ameaça muito mais difícil de contornar do que qualquer distância.

