Mesmo que fugaz, o congraçamento entre seres humanos altera a composição do universo inteiro, pressagiando uma transformação gradual que pode ou não vingar, mas que mostra-se decisiva. Há um poder mágico nesse enlace das escolhas individuais com os desígnios de um plano superior, e nesse amálgama da repulsa com o encanto a humanidade revigora-se, exercita outra vez a coragem, e uma insana metamorfose acontece. Idealista, a geração Z não sabe como é estar num mundo sem as hiperconexões da internet e seus derivados, e paradoxalmente comunica-se cada vez menos e só para algumas bolhas, assuntos que Mikael Wulff amarra bem no escrachado “Três Pessoas sem Destino”. Comediante dos bons, Wulff leva para sua primeira experiência por trás das câmeras medidas generosas do humor que cura castigando os costumes, atento às mil revoluções — legítimas e ridículas — a chacoalhar as sociedades mundo afora.
O acaso como norte
Depois de dez anos de namoro, Martin pede Cecilie em casamento. Ele é um sujeito meio presunçoso, cheio de afetações das quais orgulha-se, mas a moça não se impressionou com o anel de 37 mil libras que ele lhe ofereceu — na verdade, parece que esse era o pretexto de que estava precisando para abandoná-lo. Como autoestima também tem limite, Martin toma uma carraspana, vai parar num conjunto de apartamentos populares no noroeste de Copenhague, e Freja, uma simpática moradora, puxa conversa e lhe dá o alento possível. Situações assim, entre o cômico e o absurdo, enchem o roteiro de Wulff, que vale-se delas a fim de debater nossa perene necessidade de comunicação, sem dúvida algo que ainda pode fazer menos intoleráveis nossas diferenças. Este também é o gancho para mencionar que o desditoso Martin perdera o tal anel, parece não ter dinheiro nem para tomar um ônibus e volta a pé para o centro, na tentativa de recuperá-lo. Freja, claro, o acompanha, além de Knud, um velho amigo afeito às anedotas politicamente incorretas que dão um tom a mais de caos à jornada, momentos que Brian Lykke, Rasmus Bjerg e Thit Aaberg vertem em graça e reflexão.

