Da mesma forma que não existe crime perfeito, criminosos nunca são iguais uns aos outros. Eles se cercam de métodos semelhantes a fim de alcançar seus execráveis objetivos, mas sempre fazem questão de manifestar em seu comportamento uma característica que os difira dos outros, como uma impressão digital. Assim também se deu com Theodore John Kaczynski (1942-2023), um garoto-prodígio da matemática que abandona uma promissora carreira na academia em nome de uma causa. Como sói acontecer com tipos feito ele, Kaczynski vai dando sinais da completa inadequação que avança para a psicopatia, mote de “Unabomber”, um esforço quase jornalístico de entender o que pretendia, afinal. Juntando delicadeza e rigor, Janus Metz ilumina boa parte do espírito de um homem sem rumo num filme tão assustador quanto comovente.
Caçador e caça
Em 1958, aos dezesseis anos, Kaczynski consegue matricular-se em Harvard graças a uma bolsa de estudo, e já chega incomodando. Por onde quer que vá, paira a nuvem de tensão e divergência que se forma sobre os gênios, um foco de instabilidade que deve ser reprimido. Ele desperta a curiosidade intelectual de Henry Murray (1893-1988) e Christiana Morgan (1897-1967), um psicólogo e uma psicanalista que o convencem a submeter-se a um certo Teste de Apercepção Temática, uma técnica desenvolvida pelo casal para avaliar a atitude do paciente quando improvisar é a única saída. O roteiro de Sam Chalsen e Nelson Greaves concentra-se nesse episódio para ensaiar respostas que expliquem a degenerescência moral de Kaczynski décadas mais tarde, quando o FBI investiga a autoria de dezesseis atentados a bomba.
Na natureza selvagem
A partir do segundo ato, Janus Metz conduz o longa para o terreno sempre fértil do suspense, depois de Jacob Tremblay encarnar o jovem Kaczynski com uma interpretação assombrosa. Policiais bem-preparados, ciosos de seu ofício, começam suas intrincadas averiguações, um jogo de gato e rato ao longo do qual a verdade irmana-se com a mentira e impera sobre a lei. Entre eles está Joanne Miller, a agente que vai atrás do assassino que passa a viver numa área florestal nos arredores da cidade de Lincoln, Montana, certamente influenciado por “Walden” (1854), de Henry David Thoreau (1817-1862), clímax de um enredo menos eletrizante que cerebral. Finda a apresentação de uma cornucópia de personagens irrelevantes, Michael Laurence e Shailene Woodley têm sua merecida oportunidade na história de uma alma vil sob uma mente brilhante.

