Em 1861, na Geórgia, Scarlett O’Hara tenta conquistar um homem prometido a outra mulher enquanto a Guerra Civil ameaça Tara, a fazenda de sua família. Em “…E o Vento Levou”, Scarlett (Vivien Leigh) cresceu acostumada a conseguir atenção com um sorriso e uma frase bem escolhida. Ashley Wilkes (Leslie Howard), porém, pretende se casar com Melanie Hamilton (Olivia de Havilland). Scarlett se recusa a aceitar a notícia. Quando os dois se encontram numa festa na propriedade de Twelve Oaks, ela procura uma oportunidade para fazê-lo mudar de ideia. Rhett Butler (Clark Gable), um convidado que mal conhece, acaba ouvindo uma conversa que ela preferia manter em segredo.
A reunião em Twelve Oaks concentra boa parte do mundo que Scarlett conhece. Há visitas, flertes e jovens falando da guerra com uma confiança que ainda não foi posta à prova. Para ela, a notícia mais urgente é o compromisso de Ashley. Scarlett tenta abordá-lo longe dos outros convidados, mas ele mantém a decisão de se casar com Melanie. A conversa não lhe dá o resultado esperado e ainda a deixa exposta diante de Rhett.
O encontro dos dois é uma das boas escolhas de “…E o Vento Levou”, dirigido por Victor Fleming. Rhett percebe o esforço de Scarlett para parecer indiferente, e ela detesta que um estranho saiba tanto a seu respeito. Clark Gable lhe dá uma insolência divertida, sem esconder o interesse que tem por ela. Vivien Leigh responde com orgulho e impaciência. Nenhum dos dois parece disposto a conceder ao outro a satisfação de vencer uma discussão.
Melanie torna a situação mais delicada porque acolhe Scarlett com afeto. Ela desconhece a profundidade do interesse da jovem por Ashley e não lhe dá motivo para uma rivalidade aberta. Scarlett, por sua vez, convive com os dois sem abandonar a esperança de que o casamento não aconteça. O desejo que a leva à festa permanece sem solução quando os homens começam a partir para a guerra.
Atlanta já não é lugar seguro
Scarlett vai para Atlanta ainda presa à lembrança de Ashley. Ali, a guerra deixa de ser assunto de conversa e entra nas casas por meio das ausências, dos feridos e da falta de recursos. Melanie também está na cidade, e a convivência entre as duas se torna mais próxima. Scarlett gostaria de cuidar dos próprios interesses, mas as necessidades ao redor exigem sua presença, inclusive quando sua paciência está no limite.
Rhett reaparece nesse período com uma liberdade que Scarlett inveja e censura. Ele sabe circular por Atlanta, dispõe de dinheiro e parece menos preocupado em agradar aos demais. A relação entre eles ganha força porque Rhett fala com Scarlett de um jeito que poucos se permitem. Às vezes, sua franqueza ajuda. Em outras, chega na hora errada, e ela faz questão de demonstrar que não pediu opinião.
Quando a situação em Atlanta se agrava, Scarlett precisa pensar em sair da cidade e voltar a Tara. O caminho até a fazenda, antes tão familiar, passa a depender das condições impostas pela guerra. A dimensão épica do filme nasce também dessa mudança. A jovem que tentava decidir onde se sentar numa festa agora precisa descobrir onde poderá viver.
Tara exige mais que saudade
Tara sempre foi o centro da família O’Hara. Gerald (Thomas Mitchell), pai de Scarlett, atribui à terra um valor que ela demorou a compreender. Ao voltar, Scarlett encontra uma propriedade muito diferente daquela em que cresceu. A casa ainda existe, mas a segurança que ela representava desapareceu. Preservá-la exige trabalho e escolhas para as quais ninguém a preparou.
É nesse ponto que Scarlett se torna mais interessante e, por vezes, mais difícil de acompanhar. Ela enfrenta tarefas que antes deixaria para outras pessoas, cobra ajuda e insiste em manter a fazenda. Também pode ser egoísta, áspera e pouco atenta a quem sofre ao seu lado. Leigh interpreta essas contradições sem suavizá-las. A coragem da personagem merece atenção, mas não apaga a maneira como ela trata Melanie, Rhett e as pessoas que dependem dela.
A presença de Mammy (Hattie McDaniel), que conhece Scarlett desde a infância, torna visível outra contradição do filme. “…E o Vento Levou” dedica enorme cuidado à perda de conforto da família O’Hara, mas oferece muito menos espaço à vida das pessoas negras escravizadas que sustentavam aquele cotidiano. O encanto das festas e das paisagens da Geórgia pede, hoje, esse olhar atento. Mammy tem personalidade e autoridade nas conversas com Scarlett, embora sua vida permaneça ligada ao serviço da casa.
Scarlett insiste em escolher
O sentimento por Ashley atravessa a guerra sem deixar de afetar as decisões de Scarlett. Ele representa a vida que ela imaginava para si, mesmo quando essa vida já parece distante. Melanie continua próxima dos dois, enquanto Rhett conhece uma Scarlett cada vez mais ocupada em salvar Tara. O romance cresce em meio a essas relações, com desejos que raramente cabem nas circunstâncias de cada um.
“…E o Vento Levou” preserva o interesse porque deixa Scarlett agir antes de pedir que gostemos dela. Ela erra, fere pessoas e, quando a fazenda precisa de cuidados, trabalha para mantê-la de pé. Há momentos em que sua teimosia provoca um sorriso. Em outros, dá vontade de pedir a Melanie um pouco da paciência que Scarlett consome. A guerra lhe tira a antiga segurança, mas Tara continua precisando dela todos os dias.

