O cinema deve muito a suas figuras malditas, em especial a seus homens solitários, infelizes misantropos que, desta ou daquela maneira, encarnam o melhor e o pior da humanidade, suas contradições, seu movimento dialético para a origem de todo o mal e da salvação. Clint Eastwood personificou esse espírito como poucos ao longo de setenta anos de carreira, e em “Dívida de Sangue” fica claro como foi que constituiu um jeito sem igual de fazer cinema, em que o durão profissional, o machão americano dos faroestes de Sergio Leone (1929-1989), cede lugar ao homem ainda inquebrável, mas que sofre com suas próprias tragédias pessoais e com a dos que o rodeiam. Aqui, o diretor-protagonista separa muito bem um do outro, e os dois se complementam. Apenas verdadeiros artistas o conseguem.
O senso de dever não envelhece
Depois de uma vida dedicada a perseguir e capturar bandidos, Terry McCaleb goza de merecido descanso. Na verdade, ele só se retirou do FBI porque o coração literalmente não aguenta, obrigando-o a se submeter a um transplante, e então esse velho detetive muda, por dentro e por fora. McCaleb vai morar num barco na marina Shoreline, em Long Beach, sem esperar mais nenhuma grande emoção, até Graciella Rivers chegar-lhe com um pedido. Brian Helgeland faz da adaptação do romance homônimo de Michael Connelly, de 1998, um carrossel de palpites, até que o encontro de McCaleb e Graciella deixa tudo pateticamente óbvio, começando pelo título do longa. Eastwood explora as diversas possibilidades de seu anti-herói numa aguerrida profissão de fé quanto a fugir do lugar-comum, fazendo a aposta certa de que o esmorecimento físico de McCaleb é o ponto mais forte do personagem. A química com Wanda De Jesus é uma das melhores coisas em Dívida de Sangue, não só por conferir uma dose extra de humanidade à dureza convicta do investigador, mas também por ter o condão de sintetizar todo o enredo. Terry McCaleb é outro dos inesquecíveis alter egos de Clint Eastwood, recém-aposentado em ótima forma depois de “Jurado Nº2” (2024). Sua educação pela pedra é uma lição imortal.

