Em um fim de semana na Nova Jersey, Ray Ferrier recebe os filhos para uma visita e acaba fugindo com eles quando máquinas alienígenas atacam a cidade. Em “Guerra dos Mundos”, Steven Spielberg transforma a invasão da Terra numa história acompanhada de perto por uma família que mal conseguia passar dois dias junta.
Ray (Tom Cruise) trabalha como estivador e vive separado de Mary Ann (Miranda Otto). Quando ela deixa Rachel (Dakota Fanning) e Robbie (Justin Chatwin) sob seus cuidados, fica evidente que a convivência entre os três exige algum esforço. Rachel ainda procura no pai a segurança que espera de um adulto. Robbie, adolescente, questiona suas decisões antes mesmo de haver uma crise. Ray parece mais à vontade com as tarefas do porto do que com as necessidades dos filhos. O fim de semana seria uma oportunidade para se aproximar deles, embora nenhum dos três saiba bem por onde começar.
A invasão começa na vizinhança
Uma tempestade incomum atinge o bairro, e Ray sai de casa para descobrir o que ocorreu. Diante de uma multidão curiosa, ele vê uma máquina gigantesca surgir do chão e atacar as pessoas ao redor. Spielberg acompanha a cena da perspectiva de quem estava apenas tentando entender uma interrupção no dia. Ray corre de volta para casa sabendo mais do que os filhos, mas muito menos do que precisaria para tranquilizá-los. Sua primeira decisão é tirar Rachel e Robbie dali.
Ele consegue um carro e estabelece um destino. Quer chegar a Boston, onde Mary Ann poderia estar com os pais. Há uma razão familiar para escolher aquela cidade, além da esperança de encontrar abrigo. O problema é que Ray precisa tomar decisões enquanto as estradas recebem outras pessoas em fuga e os ataques se espalham. Ele sabe para onde gostaria de ir, mas desconhece o caminho que ainda estará livre. Rachel pede explicações, Robbie observa o que acontece do lado de fora e a viagem começa sem que o pai tenha respostas para ambos.
O roteiro, inspirado no romance de H. G. Wells, deixa Ray longe das autoridades encarregadas de enfrentar os invasores. Ele vê as máquinas quando elas aparecem perto demais e conhece a dimensão da catástrofe pelos lugares que atravessa. Essa escolha dá força às cenas de ação. O perigo vem acompanhado de uma pergunta que importa àquela família naquele instante. Conseguirão sair da rua, conservar o carro ou permanecer juntos até a próxima parada? Cada deslocamento depende de algo que Ray ainda pode perder.
Rachel precisa confiar no pai
Rachel percebe quando Ray está assustado, mesmo nas ocasiões em que ele tenta disfarçar. Dakota Fanning dá à menina uma curiosidade insistente, por vezes difícil de atender, mas compreensível diante do que ela presencia. Ray quer afastá-la das cenas violentas e, ao mesmo tempo, precisa mantê-la perto o suficiente para sair correndo. Sua atenção se divide entre procurar passagem e verificar onde a filha está. A relação dos dois cresce nesses cuidados, embora uma criança que acabou de perder a segurança da própria casa precise de mais do que ordens para seguir viagem.
Tom Cruise interpreta Ray sem abandonar o lado desagradável do personagem. Ele se irrita, toma decisões apressadas e nem sempre sabe conversar com os filhos. Também volta para buscá-los, procura onde possam descansar e insiste em chegar à família de Mary Ann. Há algo reconhecível nesse pai que precisa aprender a cuidar enquanto cuida, sem tempo para ensaiar uma versão mais paciente de si mesmo. A urgência da fuga torna suas falhas mais visíveis porque Rachel e Robbie dependem do que ele fizer em seguida.
Robbie também tem medo
Com Robbie, a dificuldade é outra. O adolescente deseja saber o que está acontecendo e resiste a deixar o pai decidir tudo por ele. Justin Chatwin interpreta essa inquietação sem fazer do rapaz alguém disposto apenas a criar problemas. Robbie vê outras pessoas correndo perigo e reage ao que presencia, enquanto Ray pensa primeiro em manter os três juntos. Cada discussão carrega os anos em que pai e filho estiveram distantes. Ray pode escolher o rumo da viagem, mas precisa convencer Robbie a acompanhá-lo.
Spielberg aproveita essa diferença entre os irmãos para impedir que a fuga se torne uma sequência uniforme de ataques. Rachel busca proteção em Ray. Robbie quer participar das escolhas e suportar as consequências delas. O pai não consegue falar com os dois da mesma maneira, sobretudo quando uma parada pode custar tempo ou abrigo. As máquinas alienígenas dominam a paisagem, mas o filme permanece atento ao espaço entre essas pessoas dentro do carro. É ali que uma decisão de Ray ganha apoio, resistência ou uma pergunta que ele preferiria adiar.
Nem todo abrigo traz sossego
Durante a viagem, Ray e Rachel cruzam o caminho de Ogilvy (Tim Robbins), um homem que também procura sobreviver. Sua presença acrescenta outra fonte de tensão ao perigo que vem de fora. Dividir um esconderijo significa depender das escolhas de alguém que Ray mal conhece, numa situação em que qualquer ruído pode atrair atenção. Robbins dá a Ogilvy uma intensidade desconfortável, e o encontro obriga Ray a observar tanto o anfitrião quanto a filha. O abrigo lhes oferece uma pausa, mas exige cautela a cada gesto.
“Guerra dos Mundos” é mais envolvente quando mantém a invasão nessa escala. Os tripés aterrorizam pela capacidade de destruir uma rua inteira, e também pelo que fazem Ray decidir dentro de uma casa, de um carro ou diante dos filhos. Spielberg não pede que ele salve o planeta. Pede que encontre passagem para Boston com Rachel e Robbie por perto. Entre uma ameaça e outra, Ray precisa contar os dois, escolher o próximo caminho e continuar dirigindo.

