O estranhamento de todas as coisas, o desconforto frente ao mundo e a si mesmo, a vontade de transformar tudo quanto já existe, sem muita ideia de por onde começar — e, o principal, de que jeito — são atributos daqueles que creem que o sonho às vezes tem muito mais valor do que o concreto e o possível. Equilibrando-se entre essas duas variáveis Olive Smith vai conseguindo tudo o que quer, com todas as incoerências a que tem direito, embora nem sempre se dê conta de seu limite. Para a personagem central de “A Hipótese do Amor”, a vida se impõe, indiferente a vontades, atropelando expectativas, como acontece num laboratório, mas ela demora a se convencer de que não pode controlar tudo, e a partir daí a diretora Claire Scanlon vai dispondo os lances um tanto mágicos da jornada de sua mocinha, chegando exatamente aonde o público espera.
Amor de laboratório
Um adenocarcinoma ductal pancreático revirou a vida de Olive e pode definir sua carreira. Pouco tempo atrás, ela perdeu a mãe para o câncer de pâncreas, e desde esse dia não sossega, até achar a cura para a doença — empreitada que exige-lhe dedicação e dinheiro. Ela almeja uma bolsa de doutorado em Stanford e a consegue, mas senta-se no fundo da sala, como se escondesse, como se tivesse medo. Talvez ela ficasse ali, quieta, mas chega Anh Pham, outra das pouquíssimas mulheres do curso, e a resgata, um evento banal que mostrará sua relevância no segundo ato. Baseada no best-seller de Ali Hazelwood, de 2021, a adaptação de Sarah Rothschild acerta ao concentrar-se na sororidade entre as duas, bem mais estimulante que o falso namoro que começa entre Olive e Adam Carlsen, o doutor em nanobiologia que chefia o departamento. Lili Reinhart e Rachel Marsh são o casal que importa em “A Hipótese do Amor”; pena que seja necessário seguir à risca o velho modelo.

