Em meados do século 19, Victor Frankenstein (Oscar Isaac) perde o apoio de seus colegas ao tentar vencer a morte. Um investidor lhe oferece um laboratório isolado, onde o cientista dá vida a uma criatura e descobre que seu experimento não termina quando ela abre os olhos. Em “Frankenstein”, Guillermo del Toro adapta a história de Mary Shelley com atenção especial ao que acontece depois da descoberta. Victor sabe construir um corpo, mas pouco se interessa por cuidar de quem passou a habitá-lo. A Criatura (Jacob Elordi) precisa aprender a falar, reconhecer as pessoas e compreender por que sua presença provoca medo. Enquanto tenta fazer tudo isso, depende de um criador que se ressente de cada nova exigência.
A morte da mãe marca a infância de Victor. Adulto, ele se dedica a experiências que poderiam impedir outras perdas, embora sua ambição vá além do desejo de salvar vidas. Ao apresentar um corpo reanimado aos colegas, espera obter reconhecimento e condições para continuar a pesquisa. Recebe reprovação. Para eles, a demonstração é perturbadora demais para merecer apoio. Para Victor, a recusa apenas confirma que terá de procurar recursos em outro lugar.
Heinrich Harlander (Christoph Waltz) assiste à apresentação e oferece dinheiro ao cientista. Comerciante de armas, ele pode financiar um laboratório afastado das instituições que rejeitaram o projeto. Victor aceita a proposta e passa a trabalhar sob a expectativa de entregar resultados. Há uma contradição pouco confortável nessa parceria. O homem disposto a custear a criação de uma vida ganha dinheiro com uma guerra que destrói muitas outras.
William Frankenstein (Felix Kammerer), irmão mais novo de Victor, também entra em sua rotina. Com ele chega Elizabeth (Mia Goth), sua noiva e sobrinha de Harlander. Victor se interessa por ela, mas Elizabeth tem opiniões próprias e observa o trabalho do cientista com menos reverência do que ele gostaria. A convivência aproxima sua pesquisa da família, justamente quando as decisões tomadas no laboratório começam a trazer consequências para todos.
A criatura abre os olhos
Victor reúne partes de corpos mortos na guerra e consegue dar vida à Criatura. O feito que deveria consagrá-lo logo se torna uma experiência difícil de administrar. Aquele ser é forte, aprende devagar e depende de atenção constante. Victor tenta ensiná-lo a falar, perde a paciência e passa a temer uma força que já não controla inteiramente. A distância entre a habilidade do cientista e sua disposição para cuidar de alguém dá à história seu desconforto mais persistente.
Oscar Isaac interpreta Victor com uma confiança que frequentemente beira a arrogância. O cientista fala de sua descoberta com entusiasmo, mas se irrita quando ela exige tempo, paciência e presença. Del Toro lhe concede motivos compreensíveis para temer a morte, sem pedir ao espectador que desculpe seu comportamento. Victor conhece o peso da perda e, ainda assim, parece incapaz de reconhecer a solidão que impõe à Criatura.
Jacob Elordi trabalha na direção oposta. Por trás do corpo que assusta quem o vê, sua Criatura presta atenção às palavras e aos gestos alheios. Ela não chega ao mundo sabendo o que é uma ameaça. Precisa descobrir quem a teme, quem pretende machucá-la e quem aceita permanecer por perto. Sua aparência provoca reações antes que consiga explicar o que deseja, e cada encontro pode tornar sua busca por companhia mais difícil.
Elizabeth entra no laboratório
Elizabeth se aproxima da Criatura e percebe nela uma capacidade de aprender que Victor, tomado pela frustração, já quase deixou de procurar. Mia Goth dá à personagem curiosidade e firmeza. Ela não trata o ser diante de si como uma experiência que deu errado, tampouco ignora o perigo de sua força. Sua presença muda a convivência no laboratório porque oferece à Criatura algo raro naquele espaço. Alguém disposto a esperar que ela consiga se expressar.
Esse interesse também expõe Victor. Ele quer que os outros admirem sua descoberta, mas resiste quando Elizabeth forma uma opinião independente sobre ela. William, noivo de Elizabeth, vê o irmão se envolver cada vez mais com o trabalho e se afastar das pessoas ao redor. Harlander, por sua vez, espera resultados do dinheiro investido. Victor insiste em decidir sozinho, mesmo cercado de gente cujas vidas já estão ligadas ao experimento.
Além das portas fechadas
Quando a Criatura precisa se orientar fora do laboratório, o terror ganha uma dimensão menos previsível. Ela procura abrigo e contato, mas sua aparência desperta medo antes de qualquer conversa. Para se proteger, conta com uma força que também pode assustar os outros. Del Toro dedica tempo a esse aprendizado. Há violência na história, porém algumas de suas passagens mais dolorosas dependem apenas da tentativa de se aproximar de alguém.
A adaptação por vezes demora a se desprender da solenidade de Victor e da grandeza de seu laboratório. É mais envolvente quando acompanha necessidades que o cientista não consegue resolver com instrumentos ou dinheiro. A Criatura quer aprender a viver entre outras pessoas. Victor quer preservar o controle sobre o que criou sem aceitar a atenção que isso requer. Elizabeth enxerga a distância entre os dois e se aproxima de quem tem menos poder para escolher.
“Frankenstein” conserva o horror de sua premissa, mas encontra sua força nas atitudes de quem divide aquele espaço. Victor alcança o resultado que perseguia e precisa conviver com ele. A Criatura recebe uma vida que não pediu e sai em busca de alguém capaz de ouvi-la. Ao deixar o laboratório, ela leva consigo as perguntas que Victor preferia manter atrás da porta.

