Na zona rural da Argentina, Pedro (Ezequiel Rodríguez) e Jaime (Demián Salomón) descobrem um homem possuído numa propriedade vizinha. Os irmãos querem afastá-lo antes que a presença demoníaca se espalhe, mas não sabem lidar com ela. Esse é o ponto de partida de “O Mal que Nos Habita”, terror de 2023 dirigido por Demián Rugna. A ameaça está perto de casa, e esperar por ajuda parece tão arriscado quanto agir por conta própria.
Pedro e Jaime procuram alguém capaz de remover o homem infectado com segurança. Enquanto aguardam, o proprietário das terras também pressiona para se livrar dele. Todos querem distância daquele corpo, embora ninguém saiba o que pode acontecer durante a remoção. A decisão de tirá-lo dali põe outras pessoas em perigo e deixa os irmãos diante de um problema maior do que aquele que encontraram.
Rugna dá ao cenário rural uma função precisa. Há campos abertos, estradas e espaço para fugir, mas nenhuma forma de saber até onde a ameaça pode chegar. Os irmãos conseguem sair da propriedade. O difícil é ter certeza de que não a levaram consigo. O filme sustenta boa parte do medo nessa dúvida, antes mesmo de Pedro pensar no que fará para proteger a própria família.
Pedro precisa buscar os filhos
Pedro vai atrás das crianças e tenta alertar Sabrina (Virginia Garófalo), sua ex-companheira. A tarefa seria difícil mesmo se os dois mantivessem uma relação tranquila. Ele precisa convencê-la de que uma presença demoníaca pode alcançar a família, enquanto o tempo para reunir os filhos diminui. Seu desespero é compreensível, mas nem sempre o ajuda a explicar o perigo ou a ouvir quem tenta ajudá-lo.
Jaime permanece ao lado do irmão, embora também tenha poucas informações sobre o que enfrentam. Os dois seguem de um lugar a outro tentando descobrir onde as crianças estão e quais pessoas ainda podem oferecer abrigo. Cada encontro exige uma escolha. Pedro quer se aproximar para proteger quem ama, mas já sabe que a proximidade também pode expor todos ao contágio.
É nessa preocupação de pai que o terror encontra sua parte mais humana. Pedro toma decisões apressadas, perde a paciência e insiste quando seria melhor parar. Nada disso o torna difícil de reconhecer. Sabrina, por sua vez, não tem motivo para aceitar sem resistência uma história tão absurda. A ameaça cresce enquanto uma conversa familiar, atravessada por desconfiança, consome o tempo de que eles precisam.
Mirta conhece as regras
A busca leva os irmãos até Mirta (Silvina Sabater), que sabe mais sobre a infecção e os cuidados necessários para contê-la. Ela oferece orientação quando Pedro e Jaime já cometeram erros e têm os filhos de Pedro em mente. Saber o que fazer traz algum alívio, mas seguir cada instrução se torna complicado para um pai que acredita estar sempre a um passo de chegar tarde.
A presença de Mirta também muda o ritmo da história. Antes, os irmãos reagiam ao que aparecia diante deles. Agora precisam pensar antes de tocar, entrar ou se aproximar de alguém. Rugna faz dessas regras uma fonte de tensão porque Pedro conhece o motivo de cada cuidado e, ainda assim, precisa decidir sob pressão. O espectador entende sua pressa sem deixar de temer o que ela pode custar.
Nenhum abrigo parece seguro
“O Mal que Nos Habita” é violento e não pede licença nos momentos mais duros. Seu efeito, porém, não depende apenas das imagens de horror. O medo acompanha Pedro quando ele precisa reconhecer uma pessoa conhecida e decidir se pode confiar nela. Também acompanha Jaime, que tenta ajudar o irmão sem ter controle sobre o que os espera na próxima parada. Até uma casa que oferece abrigo pode exigir uma decisão difícil antes de abrir a porta.
Rugna mantém o enredo preso a escolhas concretas. Os irmãos querem salvar a família, Mirta tenta impedir que a infecção avance e Sabrina precisa avaliar o aviso de Pedro enquanto protege os filhos. Cada um age com a informação que tem, muitas vezes tarde demais para se sentir seguro. Pedro segue procurando as crianças porque parar está fora de questão. Antes de entrar em qualquer lugar, porém, precisa considerar quem pode ter chegado ali primeiro.

