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Cecília chega ao consultório e recebe da secretária a notícia de que um bebê prematuro piorou no hospital. A mãe procurou a médica, sem conseguir encontrá-la. Cecília entra em sua sala, fecha a porta, depois a abre apenas para pendurar o aviso de que está em atendimento. Assim termina o primeiro capítulo de “A Pediatra”, de Andréa del Fuego. É uma apresentação precisa da personagem.

A escritora nasceu em São Paulo, em 1975, e publicou seu primeiro livro de contos, “Minto Enquanto Posso”, em 2004. Vieram “Nego Tudo”, em 2005, e “Engano Seu”, em 2007. Os títulos já permitiam desconfiar da disposição da autora para oferecer garantias. Quando chegou ao romance, com “Os Malaquias”, em 2010, havia passado pelos contos e escrito para leitores jovens. A estreia no gênero recebeu o Prêmio José Saramago no ano seguinte.

Sua formação como leitora começou na escola pública de São Bernardo do Campo, onde cresceu. Em conversa com o Paiol Literário, Andréa contou que não vinha de uma família de leitores.

A escrita apareceu cedo e em coisas pequenas. Andréa lembra de uma carta à mãe pedindo que comparecesse a uma reunião da escola e de outra ao pai, desejando feliz aniversário. Também manteve diários. Muitos anos depois, já casada, dizia que o marido era praticamente seu único leitor. Os livros ainda não existiam.

Antes do primeiro livro, o nome já existia. No fim dos anos 1990, depois de mostrar um conto erótico ao editor Ricardo Cruz, Andréa recebeu uma coluna em que respondia a perguntas sobre sexo. Precisava de um pseudônimo. A sogra sugeriu uma referência a Luz del Fuego. A coluna passou. O nome ficou. Quando publicou “Minto Enquanto Posso”, em 2004, já assinava Andréa del Fuego.

“Nego Tudo” teve, em 2005, uma edição artesanal de 107 exemplares, numerada e feita sobretudo para amigos. O lançamento foi na Mercearia São Pedro, em São Paulo.

Vinte anos depois, o livro reapareceu pela Companhia das Letras com circulação bem diferente e também com mudanças dentro dele. Alguns contos saíram. Andréa reescreveu outros; entraram textos que não existiam em 2005.

A nova edição ganhou o subtítulo “Ficções súbitas”. Alguns textos têm uma linha. Outros ocupam algumas páginas. Andréa abriu o livro outra vez. Cortou, reescreveu, acrescentou. “Sociedade da Caveira de Cristal”, escrito na mesma fase, teve outro destino.

Andréa escreveu “Sociedade da Caveira de Cristal” em 2007. Vítor tem 13 anos; um vírus chamado Bola ameaça a vida em sociedade e o garoto passa boa parte do tempo diante do computador. O Skull, jogo on-line do qual participa, acontece durante o sono. A nova edição saiu em outubro de 2024. Entre a escrita e a republicação veio a Covid-19. Os leitores de 2024 sabiam, sem precisar da imaginação de Andréa, o que significava reorganizar a vida por causa de um vírus.

Foi no mesmo período dos livros juvenis que surgiu uma história escrita num sítio no sul de Ilhabela. Havia duas cadelas Scottish Terrier, Sapoti e Jabuti, que pertenciam ao dono do lugar. Andréa transformou as duas em personagens. O livro saiu em 2010 como “Irmãs de Pelúcia”.

Em 2026, voltou a ele. Mudou o título para “Detetives de Pelúcia”, revisou o texto e ganhou novas ilustrações, de Kaká Leal. As cachorras agora apareciam com uma função mais clara já na capa: investigavam uma série de crimes para provar que não eram culpadas. Outra vez, um livro antigo voltava sem permanecer exatamente o mesmo.

Em 2021, ano em que publicou “A Pediatra”, Andréa também defendeu uma dissertação na USP sobre “Lavoura Arcaica”. O título era “Lavra e Linguagem em Lavoura Arcaica”.

Antes de Raduan Nassar houve objetos, figurinos, fotografias. Andréa trabalhou com produção de cinema e em revistas. Fez curso técnico de Publicidade. O marido era fotógrafo e, às vezes, os dois estavam no mesmo trabalho. “Minto Enquanto Posso” saiu em 2004. “Os Malaquias” ainda levaria alguns anos.

Filosofia apareceu depois dos 30. Andréa estudou na PUC de São Paulo e estava perto de terminar o curso quando resolveu começar novamente na USP. Não foi exatamente um atalho. Ficou anos na graduação. No mestrado, não escolheu a própria obra para examinar. Foi atrás de Raduan Nassar, com Maurice Merleau-Ponty participando da conversa.

A escritora, a essa altura, já existia havia muito tempo. A universitária ainda estava começando de novo.

Os livros

Quatro livros de Andréa del Fuego

Capa de Nego Tudo — Ficções súbitas, de Andréa del Fuego
Nego Tudo — Ficções súbitasAndréa del FuegoCompanhia das Letras120 páginas
Capa de Os Malaquias, de Andréa del Fuego
Os MalaquiasAndréa del FuegoCompanhia das Letras200 páginas
Capa de As Miniaturas, de Andréa del Fuego
As MiniaturasAndréa del FuegoCompanhia das Letras136 páginas
Capa de A Pediatra, de Andréa del Fuego
A PediatraAndréa del FuegoCompanhia das Letras160 páginas

Foi dessa família que saiu a história de seu primeiro romance. Os bisavós morreram quando um raio atingiu a casa onde viviam. Sobreviveram os três filhos, entre eles o avô da escritora. Andréa conservou os nomes dos parentes em “Os Malaquias”, mas deu outros destinos à história. Nico vai trabalhar numa fazenda, Júlia é adotada e Antônio permanece num orfanato. Levou sete anos escrevendo o livro. Houve recusas de editoras e períodos em que abandonou o trabalho. A primeira edição acabou saindo pela Língua Geral.

Em outubro de 2011, o Prêmio José Saramago veio por unanimidade. Entre os jurados estavam Nélida Piñon, Ana Paula Tavares, Pilar del Río e Vasco Graça Moura. O prêmio não chamou atenção apenas para a história do raio e dos irmãos separados. Vasco Graça Moura destacou a estranheza que Andréa extraía da fala cotidiana; Ana Paula Tavares chamou atenção para o controle da escrita sobre o jogo do romance. “Os Malaquias” começou depois a circular em outros países. Nada mal para um livro que havia passado por recusas antes de encontrar editora.

O romance, porém, não nasceu de uma história familiar contada de maneira organizada. Quando Andréa perguntava sobre o raio, o avô se emocionava e não conseguia falar do assunto. Outros parentes completaram o que o avô não dizia. Durante anos, repetiu-se na família que o raio explicava o nanismo de um tio-avô. Mais tarde, Andréa descobriu que não. A lembrança doméstica já vinha com erro.

Nas primeiras páginas de “Os Malaquias”, o raio mata os pais, mas a vida dos filhos rapidamente volta a problemas muito menos extraordinários. Nico, ainda criança, vai trabalhar na fazenda. Júlia segue para outra família. Antônio fica no orfanato. Os vizinhos começam a levar coisas da casa. Júlia depende de outra família. O raio pode ter sido extraordinário; a vida que sobra para os três irmãos é bastante terrestre.

A primeira frase diz: “Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.” O chão chega antes do raio. Não é detalhe decorativo. Quando o acidente invade a casa, continuam ali comida, trabalho, herança, dependência. O extraordinário entra num mundo que já tinha peso.

“As Miniaturas” saiu em 2013, pela Companhia das Letras. No romance, uma taxista cujo marido desapareceu e seu filho são atendidos pelo mesmo oneiro, um profissional que sugere sonhos com miniaturas de plástico. O parentesco deveria ter impedido que os dois fossem encaminhados a ele. O funcionário percebe o erro e fica quieto. Acaba se envolvendo com aquela família, embora seu emprego no Edifício Midoro Filho exigisse que mantivesse distância.

O livro começa de outro modo: “O Edifício Midoro Filho fica no Centro. Minha função é simples e trato direto com o público.” O sonho já aparece como trabalho.

O estranho, dessa vez, ganhou expediente.

A recepção de “As Miniaturas” foi menos confortável do que a de “Os Malaquias”. Beatriz Resende considerou original a ideia dos oneiros e especialmente interessante o contraste entre a possibilidade de fabricar sonhos e a vida ordinária da mãe e do filho, comprimida por dinheiro curto, empregos ruins e abandono.

“A Pediatra” foi publicado em 2021. Cecília tem um amante casado e acompanha o nascimento do filho dele. Justamente esse bebê desperta seu interesse, para complicação de uma mulher que vinha conseguindo manter os pacientes afastados de sua vida. Andréa contou que trabalhou durante meses nas cinco primeiras páginas. Sabia que a médica contaria a história, mas precisava descobrir como ela falaria. A escolha da primeira pessoa nos põe numa posição incômoda. Conhecemos os outros pela versão de Cecília, inclusive aqueles que ela tem motivos para tratar mal.

Na abertura, a secretária avisa: “Doutora, o prematuro complicou no hospital.” Cecília fecha a porta. É quase tudo. Andréa não precisa explicar que a personagem é fria; a escolha do gesto resolve o que uma frase psicológica talvez estragasse.

A ideia é que seja insuportável no tema, mas que a linguagem seja sedutora.

Andréa del Fuego

Andréa não é médica. Para escrever “A Pediatra”, leu centenas de relatos de parto e puerpério e artigos acadêmicos. Medicina, de qualquer maneira, não lhe era um território inteiramente estranho. Ela se define como hipocondríaca e contou que sempre leu muito sobre o assunto. Depois do romance, curiosamente, a hipocondria diminuiu. A ideia de Cecília apareceu durante uma caminhada.

Cinco anos depois, outra caminhada começou a servir a outro livro. Andréa estava escrevendo um romance ambientado numa emissora de televisão e já não dispunha das sete horas seguidas pela manhã que havia reservado para “A Pediatra”. Passou a levar o celular durante os quarenta minutos em que caminhava.

Caminhar é literatura também.

Gravava a voz das personagens. Depois transcrevia. Os áudios chegaram a cerca de oitenta páginas. Andréa fazia uma ressalva: aquelas páginas ainda não eram o romance. Eram uma trilha. A voz vinha antes da página.

Nem todo processo chegou tão longe. Andréa passou nove anos trabalhando num outro manuscrito e acabou guardando-o. Disse que havia transformado tanto o livro que já não reconhecia sua voz. Ficou na gaveta.

Eu transformei tanto o livro que fiquei muito estrangeira dele.

Em 2019, numa residência literária em Penela, Portugal, Andréa conheceu uma pediatra que assistia a uma de suas palestras. Aproveitou para perguntar se uma médica conseguia exercer a profissão quando o paciente era seu próprio filho. A mulher deu uma gargalhada e respondeu que, nessas horas, esquecia tudo o que sabia. Andréa contou a conversa à Rádio Renascença. Ainda não tinha começado a escrever o romance quando fez a pergunta. A resposta da portuguesa acabou entrando numa cena perto do final.

Em março de 2026, “A Pediatra” chegou ao palco do Sesc Pinheiros. Debora Lamm interpretava Cecília. Inez Viana assinava a adaptação e a direção, e Luis Antonio Fortes estava em cena.

Naquele ano, Andréa foi a primeira escritora brasileira anunciada para a Flip. O romance da emissora de televisão seguia em andamento.

“Os Malaquias”, “As Miniaturas” e “A Pediatra” não parecem livros de uma escritora interessada em deixar imediatamente sua marca pela repetição de um cenário, de um narrador ou de um tipo de personagem.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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