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Tinha tido um dia ruim. Cheguei em casa fisicamente esgotado, mentalmente moído. Só não afrouxei a gravata e atirei o paletó no chão porque não usava aquele tipo de indumentária. Sentei na varanda. Pensei em fumar um cigarro, mas eu não fumava. Pensei em tomar uma cerveja, mas eu não bebia no meio da semana. Resolvi recorrer à música que, no meu caso, funcionava como um antídoto para os venenos do mundo. E eles eram muitos.

Abri uma plataforma de streaming no famigerado smartphone, fechei os olhos e toquei o dedo indicador sobre a tela, aleatoriamente. O que tocasse eu ouvia. Então, começaram a soar os primeiros acordes de “Stairway to heaven”, da icônica banda britânica Led Zeppelin. Nada mau para uma obra do acaso. O universo conspirava em meu favor, só que não. Tirei a camisa. Botei os pés sobre a mesa. Fiz do jardim uma clínica de repouso. Havia uma fartura de flores. Abelhas, borboletas, marimbondos e colibris estavam de volta, enfim. O que uma chuva não fazia depois de uma longa estiagem. Notei que a pitangueira estava carregada, porém, ainda me sentia indisposto para a colheita.

Não tinha o hábito de rezar. Portanto, fechei os olhos e permiti ser invadido pela música. Sentia os pelos se eriçarem na minha pele, um imenso órgão sensorial, demonstrando na prática que era possível ouvir música, não apenas com os tímpanos, mas com o corpo inteiro. Os meus conhecimentos na língua inglesa continuavam parcos. De tal sorte que, apesar do esforço, não entendia quase nada do que cantava Robert Plant. Pouco importava. Havia tempo, eu já compreendera que as canções de que eu gostava, mesmo cantadas em língua estrangeira, faziam em mim um tremendo efeito positivo, não pela letra, mas pela melodia, pela harmonia, pela sonoridade, pelos arranjos musicais, pelos diversos instrumentos que falavam diretamente à minha mente. Já não conseguia fazer nada sem ouvir música. Tinha me tornado um viciado nela.

À medida que a canção prosseguia, ao longo de oito minutos de execução, sentia a catarse tomando conta dos meus músculos, nervos, articulações e entranhas. Tive a estranha sensação de que a alma saía do corpo para dar uma voltinha. Estranha mesmo, considerando que eu não cria em almas, viagem astral e outras coisas do gênero. No máximo, reconhecia que uma espécie desconhecida de energia vital ocupava e conduzia os organismos animais. Éramos bichos. Nada mais do que bichos. Assim como as aves e os insetos que preenchiam o jardim florido.

E dá-lhe endorfina. Imaginava minúsculas torneirinhas despejando dopamina dentro do meu cérebro, inundando as terminações nervosas que, em última instância, amoleciam o meu corpo e demoliam a dureza de outro dia sofrível. A leveza que experimentei era tamanha que supus ser possível flanar, flutuar, levitar, bater as asas como se fosse uma daquelas criaturas voadoras que coloriam o fim de tarde. Cacau, a cadelinha, farejou a epifania, parou de lamber-me a mão caída e foi deitar sob o sofá da sala, com a barriguinha repousada sobre o assoalho fresco. Fazia 40 graus na sombra. Um calor assombroso que tornava inóspito o inferno, digo, o inverno no Planalto Central do país, naquela época do ano.

“And she’s buying a stairway to heaven”, dizia o verso final da canção composta por Jimmy Page e Robert Plant. A tradução daquela frase eu já conhecia. Quase adormeci. Entendidos dirão que eu meditei. Sei lá. Não que eu tivesse consciência disso. Ainda não tinha desenvolvido a capacidade de domar e de calar os pensamentos. Sentia-me leve como um pólen flutuando ao gosto da brisa. Tomei o telefone celular em minhas mãos e pesquisei a tradução completa daquele clássico do Led Zeppelin. Fiquei frustrado ao entender um quase nada da letra. Mistérios da psicodelia que permeavam o rock and roll naquela época.

Não tinha importância. Eu fora arrebatado pela música. Sentia-me mais tranquilo, temporariamente liberto do estresse. Caminhei descalço pelo pomar e fui encher as mãos de pitanga. Colher fruta no pé, morando numa metrópole insana como aquela, era um baita privilégio. Assim como tocar um instrumento, amar a música e permitir ser sedado por ela. Era melhor do que cerveja. Era gostoso que nem pitanga.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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