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Havia uma jacuzzi pública dentro do prédio da prefeitura. O prefeito usava uma sunga roxa e estava organizando o fluxo das pessoas; sua cônjuge já se refestelava praticamente em total submersão. Todos podiam participar, mas havia ordem: fila, tempo de permanência, etiqueta regendo comportamento e contendo abusos, código de vestimenta.

Na saída, estava montada uma mesa com bebidas, à guisa de refresco e, vá lá, conclusão do relaxamento.

Eu pulei a parte da jacuzzi. Não me senti bem quando meu pensamento foi invadido pela ideia transbordante de que aquela água não parecia estar tão limpa, para dizer o mínimo. Na parte das bebidas, encontrei meus vizinhos, todos idosos, enrolados em toalhas brancas com suas iniciais bordadas em azul. Estavam felizes. Mas eles sempre são felizes. Propuseram um brinde.

Foi quando eu notei que os copos que tínhamos à disposição para o momento eram oriundos da coleção pessoal de uma das vizinhas, a que mora do outro lado da rua.


Dois amigos vieram me visitar e eu me prontifiquei a lhes mostrar toda a Eslovênia. O problema era que meu carro estava do outro lado da cidade e eu havia me esquecido exatamente da localização dele. Decidimos procurar. A pé, os três.

Enquanto caminhava, os cenários iam se expandindo, com novas ruas aparecendo logo à frente de meus pés como se eu estivesse em um jogo de videogame. Quanto mais avançava, mais desconhecido ficava. Quanto mais avançava, mais estava embrenhado no desconhecido.

Bled se tornou meu próprio esconderijo. Em algum momento, uma rua virou bifurcação e, num átimo desatento, me perdi de meus dois amigos. Foi bem aí que me vi sozinho, completamente sozinho, desamparado e preso dentro da minha própria cidade, dentro do meu próprio sonho, dentro da minha própria vida.


Eu tinha exatamente a minha idade atual, ou seja, mais de 20 anos depois da formatura, quando descobri que faltava uma disciplina para cumprir na faculdade, sem a qual jamais poderia seguir exercendo minha profissão. Era matemática, como se houvesse tal numeralha ensinada no jornalismo.

Voltei aos bancos acadêmicos e me percebi ladeado por pessoas estranhas, conectadas profundamente aos celulares e espatifando ao redor um vocabulário esquisito. Imediatamente passei a carregar livros — eu era o diferente.

Em pouco tempo, reinventou-se o sujeito exótico dos livros debaixo do braço: me tornei mais uma vez o adolescente ilhado que fui no colégio. Como se a faculdade tivesse engolido o colégio, da mesma forma como o normal e suas normas engoliram meu resto de infância.


Acordei e era um sapo, em vez de um inseto kafkiano.

Ao menos posso pular, penso com meu minicérebro batráquio. E este é meu prêmio de consolação.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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