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A luta livre talvez seja o único espetáculo em que a mentira precisa parecer verdadeira sem jamais deixar de ser mentira. O público paga para acreditar que os golpes doem mais do que doem, que mocinhos e vilões se odeiam para além do ringue e que homens escondidos atrás de máscaras coloridas são criaturas maiores que sua própria biografia. Saúl Armendáriz percebeu cedo que também podia usar a farsa para dizer uma verdade sobre si. “Cassandro”, de Roger Ross Williams, acompanha essa passagem de um lutador que quase desaparece dentro de um personagem sem graça para um homem que encontra na extravagância a única maneira possível de tornar-se inteiro.

Saúl cruza a fronteira entre El Paso e Ciudad Juárez para lutar como El Topo, um mascarado condenado à insignificância. Gael García Bernal empresta ao personagem um corpo que parece sempre hesitar entre a timidez e o exibicionismo, qualidade que Williams explora antes mesmo do nascimento de Cassandro. Quando Sabrina, treinadora vivida por Roberta Colindrez, sugere que ele se transforme num exótico, Saúl sabe perfeitamente o que a palavra significa naquele universo. Exóticos eram lutadores que entravam no ringue maquiados, afetados e vestidos para provocar o riso de uma plateia acostumada a vê-los apanhar de machões. O destino deles estava decidido antes do primeiro golpe.

O nascimento de Cassandro

Armendáriz existiu e fez justamente dessa caricatura um caminho para a celebridade. A luta livre mexicana já conhecia os exóticos havia décadas, porém Cassandro ajudou a modificar o lugar que lhes cabia no espetáculo, apresentando-se abertamente como gay e recusando-se a funcionar apenas como o palhaço destinado à derrota. Williams entende que essa mudança importa mais que qualquer campeonato. A biografia interessa porque Saúl começa a vencer no instante em que já não aceita interpretar exatamente o papel escrito por outros.

A estreia de Cassandro no filme é levada quase como um parto. Roupas coloridas, maquiagem, cabelo armado e uma disposição para seduzir até quem veio disposto a insultá-lo substituem a máscara de El Topo. O público não sabe ao certo se deve rir ou aplaudir, e Bernal trabalha essa hesitação com admirável domínio. Cassandro provoca os adversários, joga beijos para homens enfurecidos, rebola, apanha e retorna. Cada luta vai acrescentando uma camada à criatura, mas também a Saúl, que descobre uma força bastante distinta daquela que se mede pelo tamanho dos bíceps.

Williams vinha de uma carreira consolidada no documentário, e isso ajuda a explicar por que “Cassandro” resiste à tentação de transformar o protagonista num santo laico. O diretor observa os espaços pequenos, a intimidade com a mãe, Yocasta, e o caso clandestino com Gerardo, outro lutador, casado e incapaz de oferecer-lhe qualquer futuro. Perla De La Rosa e Raúl Castillo puxam Bernal para fora do ringue e lembram que aplausos não corrigem automaticamente a vida. Saúl pode dominar uma arena e continuar indefeso diante de um homem que não o assume ou da ferida deixada pelo pai ausente.

Bad Bunny surge como Felipe, contribuição breve para um lado sensual da história que Williams nunca precisa anunciar com estrépito. O erotismo de “Cassandro” nasce muito mais da confiança progressiva de Saúl em seu próprio corpo. Quando ele começa a perceber que aquela figura de cabelos altos e collant apertado não é um esconderijo, e sim uma versão mais livre de si, o filme abandona qualquer distinção confortável entre personagem e pessoa.

Fora do ringue

Há também certa delicadeza na maneira como o diretor filma a relação entre Saúl e Yocasta. Ela participa de sua transformação sem compreender inteiramente até onde o filho pretende chegar, e Bernal faz do afeto entre os dois um contrapeso para as humilhações acumuladas nos ringues e fora deles. O sucesso traz dinheiro, viagens e o reconhecimento de gente que antes o enxotaria. Não resolve tudo. Talvez nunca pudesse.

O encontro com El Hijo del Santo, herdeiro de uma das linhagens mais célebres da luta livre mexicana e interpretando a si mesmo, dá ao filme aquilo que outras cinebiografias guardariam para um clímax esportivo. Williams prefere outro caminho. Importa menos saber quem ficará de pé que observar Cassandro diante de uma instituição viva da masculinidade espetacular mexicana e perceber que ele já não precisa pedir licença para estar ali.

Gael García Bernal poderia ter transformado Saúl numa sucessão de trejeitos e roupas extravagantes, sobretudo porque o próprio universo retratado oferece essa armadilha. Faz o contrário. Quanto mais espalhafatoso Cassandro se torna, mais sereno fica o homem por baixo da maquiagem. A luta livre continua sendo uma grande encenação, cheia de quedas combinadas, rivalidades fabricadas e identidades inventadas. Saúl Armendáriz precisou justamente dela para parar de fingir.


Filme: Cassandro
Diretor: Roger Ross Williams
Ano: 2023
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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