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Louise Andersen administra um café numa pequena ilha norueguesa e parece ter conseguido uma dessas existências discretas que só despertam interesse quando alguma coisa vem destruí-las. Ela ama Joachim, conhece os hábitos do lugar, trabalha, volta para casa, repete no dia seguinte. O problema de “A Mulher Secreta” começa quando um homem olha para aquela mulher e enxerga outra. Para ele, Louise chama-se Helene Söderberg, desapareceu três anos antes e deixou para trás um marido, um filho e uma fortuna ligada a um império de navegação. Se o desconhecido diz a verdade, a vida inteira da protagonista tornou-se uma falsificação cuja autora ela mesma não consegue recordar.

Barbara Topsøe-Rothenborg sabe que a amnésia é um dos expedientes mais perigosos do suspense. Serve para qualquer coisa, explica quase tudo e permite esconder do personagem exatamente as informações que o roteirista deseja ocultar do público. Em “A Mulher Secreta”, contudo, a diretora transforma essa conveniência numa espécie de veneno administrado em doses pequenas. Louise não recupera apenas fatos. Cada resposta obriga-a a desconfiar de uma lembrança, de um afeto e, por fim, da própria pessoa que acredita ser.

Duas identidades no mesmo corpo

Há uma curiosidade especialmente adequada a uma história fundada em identidades instáveis. O romance “Den hemmelige kvinde”, que deu origem ao filme, foi publicado sob o nome de Anna Ekberg, autora que não existe. Trata-se do pseudônimo coletivo dos escritores dinamarqueses Anders Rønnow Klarlund e Jacob Weinreich, dupla que também assina obras sob outra identidade literária, A.J. Kazinski. Topsøe-Rothenborg já havia levado outro livro de Anna Ekberg ao cinema em “Um Marido Fiel” (2022), e volta ao universo dos dois autores porque parece interessada justamente no momento em que relações domésticas muito bem-arrumadas começam a cheirar a crime.

Natalie Madueño sustenta a maior parte desse jogo sem transformar Louise/Helene numa coleção de espantos. Quando descobre a existência de Edmund Söderberg, o marido interpretado por Claes Bang, ela precisa entrar numa casa, numa família e numa classe social que seriam suas, embora lhe provoquem a estranheza de um hotel onde se chega pela primeira vez. Bang entende a utilidade da contenção. Edmund é cortês demais, cuidadoso demais, sempre disposto a oferecer à mulher a peça que falta na história, e é justamente essa solicitude quase impecável que produz desconfiança. Joachim, de Pål Sverre Hagen, permanece no outro extremo, ligado à mulher que Louise acredita ter sido desde que abriu os olhos para uma existência sem passado.

O filme seria mais interessante se confiasse por mais tempo nesse triângulo. Há alguma coisa perturbadora na possibilidade de que ambos os homens digam a verdade e, ao mesmo tempo, nenhum deles possa devolver à protagonista aquilo que perdeu. Joachim conhece Louise; Edmund conheceu Helene. Entre uma e outra há um corpo só, mas não necessariamente a mesma pessoa. Topsøe-Rothenborg encontra os melhores momentos quando deixa Madueño simplesmente entrar em ambientes que deveriam lhe ser familiares e observá-los como uma intrusa.

Quando lembrar não basta

A história, contudo, é um thriller e não pretende contentar-se com esse dilema. A fortuna dos Söderberg, os negócios da família, o desaparecimento e as circunstâncias que cercam a antiga vida de Helene começam a se tocar. Ingrid Bolsø Berdal, Stina Ekblad e Lars Simonsen ajudam a engrossar a atmosfera do chamado noir nórdico, esse universo em que casas impecáveis, gente educadíssima e paisagens de cartão-postal parecem existir apenas para esconder uma quantidade indecente de podridão. Quando o filme se aproxima de sua explicação criminal, parte da ambiguidade psicológica vai embora junto.

Ainda resta Madueño. A atriz consegue fazer com que a pergunta central sobreviva até quando o roteiro se ocupa de resolver mistérios mais convencionais. Louise quer descobrir quem foi Helene, mas a descoberta mais incômoda é outra. Saber tudo sobre a mulher anterior talvez não obrigue ninguém a voltar a ser ela. A memória pode explicar uma vida sem necessariamente restituí-la, e “A Mulher Secreta” torna-se mais inquietante quando deixa essa possibilidade quieta no canto, à espera de quem a perceba.


Filme: A Mulher Secreta
Diretor: Barbara Topsøe-Rothenborg
Ano: 2026
Gênero: Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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