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Marcelo Pena ensina filosofia na universidade pública e parece ter passado a vida inteira preparando-se para receber exatamente aquilo que agora considera seu. Quando o professor Caselli morre, deixa vazia a cátedra que comandava, e Marcelo, o discípulo fiel, supõe que a sucessão será quase automática. O engano é a primeira piada de “Puan”, embora María Alché e Benjamín Naishtat saibam que poucas coisas são tão engraçadas quanto um intelectual obrigado a admitir que também é vaidoso, competitivo, ressentido e muito menos racional do que seus livros sugerem.

Rafael Sujarchuk chega da Europa antes que Marcelo consiga sentar-se confortavelmente na cadeira imaginária. Leonardo Sbaraglia entra no filme como quem já sabe que venceu. Bonito, eloquente, cosmopolita, acostumado a circular por universidades estrangeiras e dotado daquela segurança irritante dos homens que nunca parecem procurar a palavra certa, Rafael é tudo que Marcelo Subiotto não deixa seu personagem parecer. Marcelo vive correndo, atrasado, malvestido, assumindo aulas particulares para completar a renda e tentando preservar algum prestígio enquanto a vida insiste em expor suas pequenas insuficiências.

A fauna de Puan

Alché e Naishtat conhecem bem o terreno em que colocam os dois. Ela estudou filosofia; ele cresceu com um pai professor da disciplina na universidade. “Puan”, nome da rua onde fica a Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e maneira pela qual muita gente se refere ao próprio lugar, não é uma abstração acadêmica inventada por roteiristas que precisavam de um cenário excêntrico. A fauna retratada vem de perto, e talvez por isso seja tão saborosa a maneira como o filme reconhece os cacoetes daquele ambiente sem tratá-lo com desprezo.

A morte de Caselli desencadeia a disputa, mas também deixa Marcelo órfão de uma espécie de pai intelectual. Esse luto subterrâneo diferencia a rivalidade de uma mera comédia de competição. Ele quer a cátedra porque acredita merecê-la, claro, porém quer também conservar uma continuidade, impedir que desapareça junto com o professor um modo de entender a universidade e, em certa medida, a própria existência. Rafael ameaça tudo isso justamente por não parecer ameaçador. Chega sorrindo.

Sbaraglia diverte-se com essa composição, deixando Sujarchuk seduzir colegas, alunos e qualquer pessoa que esteja a uma distância razoável de sua voz. Subiotto faz o movimento contrário. Marcelo parece diminuir quando o rival entra numa sala. A graça está na percepção de que ambos são, cada qual a seu modo, ridículos. Um cultiva a modéstia até transformá-la em orgulho; o outro faz da desenvoltura uma indústria particular. A filosofia, tão ocupada há milênios com as grandes questões da humanidade, vira o pano de fundo de dois homens preocupadíssimos com uma vaga.

A Concha de Prata de Marcelo Subiotto

A atuação de Subiotto recebeu a Concha de Prata de melhor interpretação protagonista no Festival de San Sebastián, onde Alché e Naishtat também levaram o prêmio de melhor roteiro. Não é difícil perceber o que chamou atenção. Marcelo exige um ator capaz de ser patético sem perder dignidade, engraçado sem parecer escrito para a piada, triste sem converter “Puan” num drama de meia-idade. Subiotto consegue tudo isso quase sempre parecendo que preferiria estar em outro lugar.

Enquanto a disputa avança, a universidade começa a enfrentar suas próprias aflições, e a competição individual fica progressivamente pequena diante da possibilidade de que não reste cadeira alguma para ocupar. É quando “Puan” deixa mais clara a armadilha que vinha montando. Marcelo e Rafael podem citar grandes filósofos, discutir sistemas políticos, ensinar gerações de alunos a pensar criticamente e ainda assim entregar-se às mesmas mesquinharias que identificariam em qualquer objeto de estudo. O filme não os condena por isso. Pelo contrário, parece sentir afeto justamente pela distância entre o que ensinam e o que conseguem viver.

Julieta Zylberberg, Alejandra Flechner e o restante do elenco povoam a faculdade com figuras que jamais parecem estar ali apenas para fazer número. Há assembleias, corredores, conversas atravessadas, atividades que começam sem dinheiro suficiente e terminam graças à insistência de alguém. A universidade vai deixando de ser cenário e assume a condição de personagem coletiva, cheia de defeitos, burocracias e afetos difíceis de explicar para quem nunca fez parte dela.

O que sobra depois da disputa

Alché e Naishtat disseram que recorreram à comédia porque ela lhes permitia tratar temas pesados sem soterrá-los. A escolha foi providencial. “Puan” fala de morte, fracasso, transmissão do conhecimento e precariedade com uma leveza que nunca vira leviandade. Uma aula dada em situação improvável pode ser mais eficaz que um discurso, da mesma forma que a filosofia talvez se revele justamente quando o filósofo já não está protegido pelo púlpito.

No princípio, Marcelo quer substituir Caselli. Depois, quer derrotar Rafael. Aos poucos, percebe que talvez nenhuma dessas coisas seja exatamente o problema. Um professor passa a vida ensinando ideias concebidas por homens mortos há séculos, e “Puan” sugere que a transmissão só permanece viva quando alguém entende que herdar não é ocupar o lugar do outro. É conseguir continuar depois dele.


Filme: Puan
Diretor: María Alché e Benjamín Naishtat
Ano: 2023
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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