Blondi e Mirko fumam maconha juntos, escutam os mesmos discos, vão a shows, conversam sem cerimônia e parecem dois amigos que por algum acaso acabaram dividindo a mesma casa. Só depois se impõe o detalhe que Dolores Fonzi usa para desmontar quase tudo que se espera de uma história familiar. Blondi é mãe de Mirko. Teve-o muito jovem e, em vez de adotar a pompa de autoridade que tantas famílias cultivam mesmo quando ninguém acredita nela, foi crescendo junto com o filho até a fronteira entre maternidade e amizade ficar praticamente invisível.
“Blondi” é a estreia de Fonzi na direção de longas, mas há pouco do receio habitual de quem chega pela primeira vez atrás da câmera. Ela também protagoniza, produz e assina o roteiro com Laura Paredes, cercando a personagem de uma família em que cada pessoa encontrou uma maneira própria de fracassar diante das expectativas convencionais. O resultado é uma comédia de afetos desarrumados, sem qualquer vontade de corrigir aquela gente para que se pareça com uma família exemplar.
Uma mãe que cresceu junto com o filho
Mirko, vivido por Toto Rovito, está na idade em que sair de casa começa a deixar de ser uma ameaça vaga e torna-se uma providência. Para quase toda mãe, isso significa o velho drama do ninho vazio. Para Blondi é pior. O filho não é apenas alguém de quem cuidou. É seu comparsa, sua companhia de cinema, música, cigarro e conversa, e a possibilidade de perdê-lo obriga-a a descobrir quanto de sua vida foi construído sobre aquela parceria. Fonzi não dramatiza essa tomada de consciência com choradeira precoce. Blondi continua dirigindo seu carro, fazendo trabalhos esporádicos e fingindo que tudo é bastante simples.
A própria diretora explicou que a origem do filme estava numa imagem de uma mãe e um filho sozinhos no mundo. É fácil entender por que essa figura sobreviveu ao processo de escrita. Mesmo quando outros personagens entram e saem, o longa parece sempre voltar aos dois, como se o restante da família apenas servisse para revelar diferentes possibilidades de ser adulto. Martina, a irmã interpretada por Carla Peterson, fez escolhas muito mais reconhecíveis, com marido, filhos e uma organização doméstica que deveria fazê-la mais satisfeita. Não faz. Pepa, a mãe de ambas, vivida por Rita Cortese, tampouco corresponde ao arquétipo da matriarca sábia e conciliadora. Ela tem preferências, impaciências e uma sinceridade capaz de ferir com eficiência cirúrgica.
É nesse trio de mulheres que “Blondi” encontra seus melhores momentos. Fonzi não está interessada em decidir qual delas é uma boa mãe, talvez porque a pergunta lhe pareça antiquada demais. Interessa-lhe observar o que acontece quando mulheres deixam de representar maternidades edificantes e admitem egoísmo, cansaço, prazer, arrependimentos e a vontade de conservar uma parte de si fora dos filhos. O humor nasce sem que ninguém precise anunciar uma piada.
Leonardo Sbaraglia tem participação menor nesse universo fundamentalmente organizado pelas mulheres, e isso convém ao filme. Fonzi evita que a ausência de uma figura masculina forte transforme-se em trauma explicativo. Blondi não está à espera de um homem que finalmente lhe dê estrutura, tampouco Mirko parece ter sido criado sob alguma carência devastadora. O que os dois têm pode ser pouco ortodoxo, às vezes francamente irresponsável, mas funciona até o instante inevitável em que precisa mudar.
Mirko quer crescer
A música ajuda a revelar aquilo que Blondi tenta conservar. O título acena para Blondie, e canções da banda atravessam a história como lembranças de uma juventude que a protagonista nunca chegou exatamente a abandonar. Há algo de Debbie Harry em sua cabeleira clara, em sua alegria meio insolente e na recusa em aceitar que determinada idade deva impor determinado comportamento. Fonzi sabe, porém, que essa liberdade também pode virar uma prisão. Continuar jovem deixa de ser uma virtude quando exige que os outros não cresçam.
Mirko quer crescer.
A aparente simplicidade dessa informação basta para deslocar tudo. Rovito não transforma o filho num ingrato em busca de independência, e Fonzi tampouco faz de Blondi uma mãe possessiva. O afeto entre eles é precisamente o que torna necessária a separação. A certa altura, cada um precisa descobrir se existe para além do outro, pergunta banal que o filme reveste de uma melancolia discreta, sempre interrompida por uma tirada, um cigarro, uma música.
Dolores Fonzi poderia ter feito de sua estreia uma demonstração ostensiva de competência, mas prefere uma família que conversa por cima uns dos outros, erra sem solenidade e segue adiante. “Blondi” tem essa aparência desarrumada das casas onde as pessoas de fato vivem. E talvez Mirko só consiga ir embora porque nunca precisou fugir.

