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José Régio começou por alugar um quarto numa pensão de Portalegre. Depois alugou outras dependências, à medida que aumentava a coleção de antiguidades, até se tornar o único hóspede.

No Alentejo, espalhou-se a notícia de que havia um professor interessado em comprar coisas velhas. Régio reuniu pratos de faiança, peças de estanho, utensílios de cozinha e imagens de Cristo talhadas em madeira. Também vendia e fazia trocas.

No liceu, era o professor Reis Pereira. Chegou a Portalegre em 1929, depois de um ano como professor provisório no Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Tornou-se efetivo em 1930 e se aposentou em 1962. Arminda Bigares, que frequentou suas aulas nos anos 1950, recordava a exigência e a austeridade, mas também a amizade com os alunos. Quando visitou o Centro de Estudos Regianos, já acompanhada da filha e de duas netas, ainda falava daquele professor.

Régio nasceu em Vila do Conde, em 17 de setembro de 1901. O pai, José Maria Sobrinho, era ourives e dirigia grupos de teatro amador. A mãe, Maria da Conceição Pereira, acompanhava de perto a vida dos filhos. Os irmãos encenavam peças com roupas velhas da família. Antonino recebia papéis em que devia ficar calado e quase não se mover, para não atrapalhar. Às vezes, ele se revoltava.

Entre os 12 e os 13 anos, Régio começou seu primeiro caderno de versos. Por volta dos 15, leu “Só”, de António Nobre, que o impressionou profundamente. Em 1917, foi estudar no Porto, acompanhado do irmão Júlio. O colégio ficaria em sua memória como uma experiência penosa. Dois anos depois, seguiu para Coimbra, onde encontrou amigos e uma vida de estudante da qual guardaria outras lembranças.

Antonino partiu para o Recife em 1924, aos 19 anos. Numa carta a Flávio Gonçalves, Régio atribuiria a partida ao sucesso de um tio-avô no Brasil. O irmão conseguiu uma vida estável como empregado de escritório, sem repetir a prosperidade do parente. Os dois mantiveram contato por cartas. Régio nunca foi ao Brasil, e Antonino não voltou a Portugal.

Em março de 1927, Régio fundou com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca a revista Presença, que circularia durante treze anos. Entre os amigos de Coimbra estava o poeta Edmundo de Bettencourt. Régio contou a Luís Amaro que chegava a se levantar da cama para procurá-lo e retomar uma discussão. Anos depois, em Lisboa, Amaro promoveria uma reconciliação entre os dois.

Em 1928, escrevendo de Vila do Conde a Carlos Queirós, Régio contava como passava os dias junto ao mar. Pela manhã, procurava os trechos desertos da praia e se jogava entre as ondas. À tarde, voltava com um livro e ficava lendo até escurecer. No ano seguinte, começaria a vida de professor em Portalegre.

Já em 1956, numa carta ao pai, ainda falava das dificuldades da carreira literária. Dizia que defendia suas peças e seus romances e que, nos artigos, continuava a discutir coisas do seu tempo com as quais não concordava.

Depois da aposentadoria, em 1962, passou quatro anos dividindo a residência entre Portalegre e Vila do Conde. Antonino morreu no Recife em 1965, e Régio insistiu para que lhe enviassem as cartas e os escritos que o irmão deixou.

No estudo que acompanha a edição da correspondência dos irmãos, Filipe Delfim Santos recupera o testemunho de José Constantino Maia sobre esses pedidos. Foram para Vila do Conde fotografias, papéis dos pais, cartas dos outros irmãos. Régio quis de volta também as que ele próprio havia escrito.

Em 1965, negociou sua coleção de antiguidades com a Câmara Municipal de Portalegre. A venda tinha uma condição. O município deveria comprar a casa, restaurá-la e instalar ali o museu. No ano seguinte, Régio voltou a se estabelecer definitivamente em Vila do Conde.

Entre novembro de 1966 e março de 1967, esteve internado no Sanatório do Lumiar. Depois da alta, voltou a escrever no Diana Bar, na Póvoa de Varzim. Em 1968, explicou a Eugénio Lisboa onde encontrá-lo ali, de manhã no piso de baixo, à tarde na galeria.

Em 1969, ainda foi a Portalegre acompanhar as obras da casa onde tinha vivido. Sofreu um infarto em outubro e morreu em 22 de dezembro, aos 68 anos. O museu só abriria em maio de 1971.

Nove dias depois da morte, Luís Amaro escreveu a Jorge de Sena. Lembrou os almoços em Lisboa e o gosto do companheiro pelo arroz-doce do restaurante Mesquita. Recordou também as notícias de melhoras e recaídas nos dias que antecederam a morte. No sábado anterior, Alberto de Serpa já tinha lhe dado notícias que faziam temer o pior. Amaro foi ao funeral. Entrou então, pela primeira vez, na casa de Régio em Vila do Conde.

Em “Confissão dum Homem Religioso”, Régio recordou uma decisão tomada depois da morte do avô. Anunciou aos pais que deixaria de se confessar e de comungar. Iria à igreja quando tivesse vontade. No livro, examinou a fé recebida na infância, antes de poder discutir o que lhe ensinavam.

O afastamento dessas práticas não encerrou o assunto. Anos depois, comprava imagens de Cristo feitas por artesãos populares e procurava lugar para elas em casa.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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