Jack Stone assalta um banco com a intenção de ser preso, ideia tão absurda que “Rebelião” não perde tempo tentando torná-la sensata. Ele quer entrar na penitenciária onde Balam dirige um império criminoso com mais conforto que muito empresário desfruta em liberdade. Guardas o obedecem, autoridades o temem e sua cela parece o escritório privativo de um sujeito que apenas transferiu a sede da organização para dentro do presídio. Jack tem uma razão mais íntima para atravessar os portões. Balam matou sua família, e a prisão é o endereço onde pretende acertar as contas.
John Lyde sabe a espécie de filme que está fazendo e talvez seja essa sua melhor qualidade. A origem de “Riot”, título original de “Rebelião”, diz muito sobre o resultado. Lyde desejava realizar uma produção concentrada em combate físico, inspirado sobretudo por “Operação Invasão” e sua continuação, e sabia que teria acesso a uma penitenciária desativada no Utah. Em vez de imaginar o filme e depois sair à procura de recursos para executá-lo, fez o caminho contrário. O espaço disponível ajudou a determinar a história, e o roteiro foi moldado em função daquilo que a equipe realmente poderia filmar.
Uma prisão construída para a pancadaria
Esse pragmatismo aparece na tela. Jack percorre corredores, pátios, celas e galerias como se cada ambiente existisse para a luta seguinte, o que provavelmente era verdade desde a concepção. Matthew Reese não tenta acrescentar ao protagonista uma profundidade que o enredo jamais lhe ofereceu. Stone é vingança com pernas e braços, um policial disposto a entrar voluntariamente numa fortaleza inimiga porque não acredita que a lei consiga fazer o serviço. Diante de uma figura tão retilínea, são justamente os personagens laterais que dão algum relevo ao conjunto.
Dolph Lundgren aparece como William, um presidiário de modos estranhamente discretos para alguém com quase dois metros de altura e o rosto de quem já atravessou dezenas de filmes quebrando adversários ao meio. Lyde conheceu Lundgren e Chuck Liddell durante outro trabalho e, ao preparar “Rebelião”, imaginava inicialmente o astro sueco em outra posição. Lundgren interessou-se por William, um papel menos óbvio, e o roteiro foi adaptado para acomodar essa escolha. Foi uma decisão inteligente. Há alguma graça em ver um ator conhecido pela agressividade física esconder durante certo tempo justamente aquilo que o público espera que ele faça.
Balam fica com Chuck Liddell, e aí não existe esforço algum para enganar ninguém. Ex-campeão do UFC, Liddell entra em cena com a brutalidade já estampada no corpo e oferece ao chefão russo a presença ameaçadora que o papel exige antes mesmo de qualquer fala. O filme não precisa convencer o espectador de que esse homem sabe machucar alguém. Precisa apenas arranjar motivos para colocá-lo diante de Jack.
O corpo fala primeiro
Danielle Chuchran, hoje creditada como Danielle C. Ryan, interpreta Alena e impede que a narrativa transforme o presídio num clube exclusivamente masculino de pancadaria. Sua subtrama abre outra frente dentro da instituição, embora tudo seja inevitavelmente sugado pela grande revolta que o título promete. “Rebelião” tem a simplicidade dos filmes em que ninguém compra o ingresso para descobrir se haverá confronto, mas apenas para saber quando ele vai começar e quem estará de pé quando acabar.
Lyde filma as brigas de maneira suficientemente clara para que se entendam os movimentos. Parece um detalhe, mas deixou de ser. Boa parte do cinema de ação contemporâneo aprendeu a mascarar limitações com uma montagem histérica, na qual três socos exigem quinze cortes. Aqui, a escassez de recursos produz o efeito contrário. Corpos ocupam o quadro, golpes precisam parecer golpes e os atores não podem depender o tempo inteiro de uma nuvem de computação gráfica.
Nada disso faz de “Rebelião” uma obra especialmente sofisticada. Algumas atuações são duras no pior sentido, certas situações só existem porque o próximo combate precisa começar e Balam controla a prisão com uma facilidade que faria qualquer sistema penitenciário do planeta parecer uma associação de bairro. Entretanto, cobrar realismo dessa engrenagem talvez seja errar o alvo. O filme quer prender um homem numa construção cheia de adversários, fechar as portas e observar até onde ele consegue chegar.
Quando William abandona a aparente passividade e Balam precisa sair do conforto de seu pequeno reino, “Rebelião” finalmente entrega o filme que vinha anunciando. Reese, Lundgren e Liddell pertencem a escolas diferentes do mesmo cinema físico, e Lyde consegue colocá-los para funcionar dentro das limitações que tinha. O presídio abandonado deixa de ser uma economia de produção e vira parte decisiva da atmosfera. Jack Stone entrou ali por vontade própria. Sair, evidentemente, já era outro problema.

