Há algo deliberadamente incômodo na maneira como Zack Snyder transforma uma jovem prestes a ter parte do cérebro destruída numa heroína de videogame. Babydoll tem o rosto infantil de Emily Browning, os cabelos louros presos em maria-chiquinha, uma espada nas mãos e armas suficientes para declarar guerra a meio planeta, mas essa é apenas uma das mulheres que convivem dentro da personagem. A outra está trancada num hospital psiquiátrico e espera pela lobotomia depois de uma sequência de desgraças familiares. “Mundo Surreal” nasce dessa fratura e passa quase duas horas entrando e saindo dela, nem sempre sabendo distinguir liberdade de fantasia, violência de espetáculo, emancipação de fetiche.
Snyder havia chegado ali depois de “Madrugada dos Mortos” (2004), “300” (2006) e “Watchmen” (2009), obras que, de uma forma ou de outra, partiam de material preexistente. “Sucker Punch”, o título original, foi sua oportunidade de levar ao cinema uma história concebida por ele, desenvolvida durante anos com Steve Shibuya a partir de uma ideia antiga sobre uma garota obrigada a dançar que, para suportar a situação, refugiava-se numa aventura imaginária. Quase tudo que há de admirável e de exasperante no diretor já estava embutido nessa gênese. Snyder pensa por imagens e, quando uma imagem lhe parece boa, não costuma perguntar se ela precisa existir.
A fantasia como campo de batalha
Babydoll chega ao Lennox House depois da morte da mãe e da irmã e logo descobre que seu padrasto tratou de assegurar que ela nunca consiga explicar direito o que aconteceu. Blue Jones, o funcionário interpretado por Oscar Isaac, aceita participar da tramoia, e a internação torna-se uma contagem regressiva para a chegada do médico que irá lobotomizá-la. É nesse momento que o manicômio muda de forma. As pacientes passam a ser dançarinas mantidas num clube, Blue assume de vez a posição de cafetão, e Vera Gorski, a psiquiatra de Carla Gugino, torna-se uma espécie de mestra de cerimônias responsável por ensinar às garotas como sobreviver naquele comércio de corpos.
Não basta uma fantasia. Quando Babydoll dança, abre-se outra porta e começa um terceiro filme, muito mais caro e ruidoso, no qual ela e Sweet Pea, Rocket, Amber e Blondie enfrentam samurais gigantescos, soldados reanimados, robôs, criaturas fabulosas e tudo mais que coubesse na imaginação de Snyder e no orçamento. Abbie Cornish e Jena Malone têm alguma oportunidade de conferir densidade às irmãs Sweet Pea e Rocket, ao passo que Jamie Chung e Vanessa Hudgens ficam um pouco mais presas ao movimento incessante desse batalhão feminino. A cada incursão, um objetivo muito simples deve ser cumprido para que o plano de fuga avance. Arranjar um mapa. Conseguir fogo. Tomar uma faca. A mente de Babydoll converte uma tarefa ordinária e terrível numa campanha de guerra porque talvez seja esse o único jeito de suportá-la.
O problema de “Mundo Surreal” nunca foi ser excessivo. Snyder conhece o excesso melhor que muitos diretores conhecem a moderação. A questão está no que ele faz com aquelas mulheres enquanto diz que pretende libertá-las. As heroínas são enquadradas em saias mínimas, espartilhos, meias altas e decotes cuidadosamente calculados; a câmera detém-se sobre seus corpos com um prazer que contradiz a denúncia do mundo masculino que as aprisiona. Pode-se argumentar que essa contradição é consciente, que o filme lança ao espectador justamente o olhar que pretende condenar. Pode-se também notar que Snyder parece divertir-se demais com aquilo que supostamente critica. Uma coisa não invalida inteiramente a outra, e o desconforto permanece.
O preço da fuga
Oscar Isaac percebe esse terreno melhor do que quase todos. Seu Blue começa afetado, desagradável, algo risível, e vai deixando a monstruosidade escapar à medida que a fantasia perde a capacidade de proteger as garotas. Scott Glenn aparece em outro plano como o sábio que oferece instruções quase oraculares, enquanto Jon Hamm paira sobre o enredo como o homem encarregado do procedimento final. Nenhum deles tem tanto a perder quanto Babydoll, e essa desproporção acaba sendo o verdadeiro motor dramático do filme.
Conforme o plano degringola, as imagens também deixam de proporcionar o êxtase que tinham nas primeiras batalhas. As perdas devolvem peso a tudo, e aquilo que parecia uma brincadeira caríssima começa a revelar sua natureza mais cruel. Babydoll descobre, por fim, que fugir talvez não signifique atravessar pessoalmente a porta. Sweet Pea ganha uma oportunidade que as outras já não têm, e Snyder encontra nessa troca uma delicadeza inesperada depois de tanto metal, pólvora e câmera lenta. “Mundo Surreal” continua sendo um filme desmesurado, contraditório e às vezes embriagado pela própria beleza. Ainda assim, quinze anos depois, permanece difícil confundi-lo com qualquer outra coisa que tenha passado por Hollywood.

