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Em uma cidade futurista dominada por repartições, Sam Lowry (Jonathan Pryce) tenta corrigir uma prisão injusta e acaba perseguido pelo próprio governo. Lançado em 1985 e dirigido por Terry Gilliam, “Brazil: O Filme” acompanha Sam Lowry (Jonathan Pryce), funcionário público de uma sociedade futurista sufocada por formulários, vigilância e equipamentos defeituosos. Ele leva uma vida discreta, foge das promoções oferecidas pela mãe influente e prefere passar despercebido. Essa rotina termina quando um erro numa ordem de prisão leva agentes do governo à casa de um homem inocente. Ao tentar reparar o caso, Sam descobre que a burocracia sabe condenar pessoas, mas raramente admite uma falha.

O engano começa de maneira quase ridícula. Um inseto cai sobre uma máquina e muda o sobrenome impresso num documento. A ordem destinada a Archibald Tuttle (Robert De Niro), técnico clandestino procurado pelo governo, passa a identificar Archibald Buttle (Brian Miller), pacato pai de família. Buttle é retirado de casa diante da esposa e dos filhos. Para os funcionários envolvidos, contudo, tudo parece correto porque existem carimbos, assinaturas e registros confirmando o procedimento.

Sam recebe a tarefa de visitar a viúva, senhora Buttle (Sheila Reid), para devolver uma quantia cobrada indevidamente durante a prisão. O detalhe revela o absurdo daquela administração. A família perdeu um marido e um pai, mas o governo se preocupa em corrigir apenas o valor lançado na conta. Sam chega à casa com um cheque e descobre que nenhum documento pode reparar o estrago provocado pelos agentes.

Jill passa a ser suspeita

Jill Layton (Kim Greist), vizinha da família Buttle, testemunhou a operação e tenta denunciar o erro. Ela percorre departamentos, preenche papéis e insiste em ser ouvida. A iniciativa chama a atenção das autoridades, que passam a tratá-la como possível ameaça. Naquela cidade, questionar uma prisão desperta mais desconfiança do que prender o homem errado.

Sam reconhece Jill assim que a vê. Ela é a mulher que aparece repetidamente em seus sonhos, nos quais ele surge com asas, voa acima de paisagens luminosas e tenta salvá-la de criaturas ameaçadoras. Essas fantasias oferecem a única fuga possível para um homem cercado por mesas, tubos e arquivos. O problema surge quando Sam permite que o sonho interfira em sua rotina profissional.

Para descobrir quem é Jill e impedir que ela seja presa, ele aceita uma promoção no Ministério da Informação. O novo cargo garante acesso a documentos confidenciais que antes estavam fora de seu alcance. Sam toma essa decisão por paixão, curiosidade e culpa, embora mal conheça a mulher que pretende proteger. Seu gesto tem algo de romântico e bastante de imprudente. Quanto mais pesquisa o nome de Jill, maior fica o rastro deixado por ele nos arquivos oficiais.

Uma promoção bastante perigosa

No novo setor, Sam trabalha sob as ordens do inseguro senhor Kurtzmann (Ian Holm), chefe preocupado em preservar o emprego e transferir responsabilidades. Também reencontra Jack Lint (Michael Palin), antigo amigo que trabalha nos interrogatórios do governo. Jack mantém uma postura educada e familiar, mesmo quando participa de atividades violentas. A delicadeza de seus modos torna sua presença ainda mais perturbadora.

Sam conhece bem os atalhos administrativos e usa senhas, autorizações e favores para obter informações sobre Jill. Pela primeira vez, sua experiência como funcionário público possui alguma utilidade fora da mesa de trabalho. Cada consulta, porém, registra seu nome e aproxima os investigadores. Ele acredita que ainda controla a situação, mas o Ministério já acompanha seus passos.

Jill desconfia das intenções de Sam. Ela sabe que ele pertence à mesma estrutura responsável pela morte de Buttle e não possui razões para acreditar em suas promessas. Sam insiste em ajudá-la enquanto tenta explicar sua participação no caso. A aproximação dos dois nasce sob vigilância, cercada por agentes, telefonemas e documentos capazes de transformar qualquer cidadão em suspeito.

Tuttle trabalha sem autorização

A vida de Sam sofre outra mudança quando o sistema de climatização de seu apartamento quebra. Os técnicos oficiais não resolvem o defeito porque exigem formulários e permissões específicas. Archibald Tuttle surge pela janela, examina o equipamento e executa o conserto sem cerimônia. Robert De Niro interpreta o personagem com leveza, dando ao técnico procurado a serenidade de quem sabe fazer o trabalho e não possui paciência para protocolos inúteis.

Tuttle virou criminoso porque prefere trabalhar livremente, sem depender das ordens do governo. Sua eficiência contrasta com Spoor (Bob Hoskins) e Dowser (Derrick O’Connor), funcionários autorizados que chegam depois, desmontam partes do apartamento e defendem o direito de piorar o problema. A situação rende algumas das passagens mais engraçadas de “Brazil: O Filme”. O riso vem acompanhado de desconforto, pois aqueles homens podem destruir uma residência e ainda contar com o respaldo dos documentos.

A cidade criada por Terry Gilliam mistura tecnologia antiquada, tubulações aparentes, escritórios apertados e anúncios que prometem felicidade. Tudo parece moderno e decadente ao mesmo tempo. Computadores ocupam mesas enormes, telas minúsculas dificultam a leitura e aparelhos domésticos ameaçam seus proprietários. A tecnologia multiplica tarefas, cria novas exigências e mantém as pessoas dependentes de serviços incapazes de atendê-las.

O romance entra nos arquivos

A perseguição ganha força quando Sam utiliza seu cargo para retirar Jill do alcance das autoridades. Os atentados atribuídos a grupos terroristas mantêm a população assustada e oferecem ao governo uma justificativa permanente para vigiar, prender e interrogar. Qualquer irregularidade pode ser classificada como ameaça à segurança. Sam deixa de ser apenas um funcionário apaixonado e passa a ocupar o mesmo arquivo reservado aos suspeitos.

Jonathan Pryce dá ao personagem uma mistura convincente de ingenuidade, medo e coragem tardia. Sam passou anos obedecendo porque a obediência lhe garantia conforto. O caso Buttle retira essa proteção e coloca diante dele uma escolha incômoda. Permanecer calado significa abandonar Jill e aceitar a morte de um inocente como simples erro de digitação. Interferir significa perder o emprego, o prestígio familiar e a segurança oferecida pelo cargo.

Ida Lowry (Katherine Helmond), mãe de Sam, vive cercada por festas, restaurantes sofisticados e procedimentos estéticos cada vez mais estranhos. Ela tenta usar seus contatos para favorecer o filho, mas parece pouco interessada no que acontece fora de seu círculo social. Enquanto pessoas desaparecem nos corredores do Ministério, Ida discute aparência e cirurgias com a naturalidade de quem escolhe uma sobremesa. Sua presença reforça a distância entre os privilegiados e aqueles esmagados pelas repartições.

“Brazil: O Filme” é inquietante porque transforma uma letra errada, um formulário e uma assinatura em instrumentos de perseguição. Terry Gilliam constrói uma ficção científica inventiva, engraçada e cruel, na qual ninguém precisa assumir a culpa pelo que fez. Basta apresentar o documento correto. Sam tenta proteger Jill antes que os agentes cheguem até ela, mas cada porta aberta deixa outro registro para o Ministério seguir. Quando o governo finalmente reúne esses papéis, o funcionário que conhecia todas as regras já não possui autorização para escapar delas.


Filme: Brazil: O Filme
Diretor: Terry Gilliam
Ano: 1985
Gênero: Drama/Ficção Científica/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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