Inconformado com o próprio desajuste num mundo que o menospreza e o esmaga, o homem tenta entender-se consigo mesmo, equalizar seus ruídos, passar por cima do que o apavora, vencer as tantas carências do corpo e da alma e, assim, talvez, sufocar suas misérias. Enquanto não começam a pipocar as urgências que nos levam a atravessar invencíveis areais de solidão pontuados por oásis de esperança cada vez mais raros, lutamos, perdemos e partimos para novos embates, ainda a sangrar. Usar o terror para falar de espíritos fraturados, casamentos desfeitos, mortes prematuras e toda a sorte de distúrbios sociais não é exatamente uma ideia original, mas funciona, como se assiste em “Solo — A Ilha do Medo”, produção sóbria, mas inspirada, sobre dores que quase nunca se deixam à mostra. Dispondo de orçamento limitado, o canadense Isaac Cravit dá a seu longa de estreia a aura de uma jornada fadigosa, protagonizada por uma anti-heroína buscando uma segunda chance. Ela acha, porém, é incompreensão e sadismo.
Paraísos artificiais
Poder-se-ia dizer que Gillian é uma adolescente comum — não fosse a tristeza que não passa e os reiterados episódios de automutilação. Gillian quer provar que é maior que suas fraquezas, une o útil ao agradável e vai trabalhar como monitora num acampamento de verão, mas para ser admitida, terá de aceitar permanecer isolada numa ilha por duas noites, para os pais se assegurarem de que os internos contam com assistentes bem-preparados. Nesse ritmo, o diretor-roteirista conduz a narrativa de modo a embaralhar as sensações da garota com o que acontece de verdade, mas deixando uma brecha para que se pense que ela pode ter um fio de razão em sua paranoia. Cravit opera as desconfianças de Gillian dando ao público elementos para inferir que há mais gente na ilha, após uma primeira tentativa de homicídio contra ela. Annie Clark e Daniel Kash levam sem nos permitir conclusões apressadas.

