Casamentos que acabam por falta de amor e outras carências; esposas que se deixam subjugar por seus maridos, pelo que julgam ser um sentimento de cuidado e proteção, mas que se afina mais à ideia de posse e cerceamento; costumes que reprimem manifestações públicas de afeto entre indivíduos de gêneros distintos, ampliando ainda mais a distância entre homens e mulheres; autoridades omissas e preconceituosas que menoscabam e tripudiam das necessidades da mulher de hoje. Esses são alguns recortes da vida numa Índia que ruma para a novidade cada vez mais certa do desenvolvimento, mas que não consegue libertar-se de tradições que aprisionam a condição feminina no calabouço frio e escuro do desprezo a sua própria individualidade, mesmo quando elas é que estão no topo. Apresentando cada um a seu modo um ponto de vista acerca da questão feminina em seu país, os diretores Shakun Batra, Vishal Bhardwaj, Vikramaditya Motwane e Kiran Rao urdem “Quatro Histórias de Desejo 3” de forma a compor uma só trama, pautada pela relação entre a mulher e o que ela entende por sexo — ou, melhor, o que ela quer entender. O filme presta-se a uma antologia de contos sobre os anseios femininos neste início de século, quiçá antevendo transformações, ainda que pontuais, ou jogando luz no que deve sair das sombras.
Homens-objeto
No primeiro segmento, o mais duradouro e mais bem-elaborado, assinado por Motwane, Padma e Hemant recebem amigos e parentes para comemorar as suas bodas de cristal. Quinze anos se passaram como quinze séculos, e não há libido que aguente um marido que leva o celular para a cama e uma esposa que dorme amuada, fingindo que não há problema nisso. Shonali e Debendu vivem um sufoco parecido, então uma saída doméstica talvez seja a ideal. É a melhor amiga de Padma quem sugere que os quatro, mais os filhos deles, se hospedem num resort nas montanhas de Khandala, bem longe de Kandivali, subúrbio de Mumbai, e num jantar, seduzam o cônjuge uma da outra. Evidentemente, nem tudo corre como deveria — entre outras razões porque Padma diz a Shonali que Hemant adora ghazal, mas ele tem péssima memória dessas canções —, e assim o diretor aponta o quão patético pode ser o convívio entre os que se amam, contrabalançando os momentos cômicos de Radhika Apte e Konkona Sen Sharma com o pasmo dos maridos, interpretados por Vijay Varma e Abhishek Banerjee. Nas outras três narrativas, o amor, o sexo e claro, a rotina conjugal surgem em enredos algo previsíveis, nada que abale o saldo positivo de “Quatro Histórias de Desejo 3” que, como os dois longas anteriores, sacode os tabus atávicos da Índia, uma terra sensual e ao mesmo tempo avessa a modernices.

