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Um estranho conceito de sororidade explode da tela em “Ardente Vingança”. Se por um lado, a retaliação a que alude o título é justa — do ponto de vista da revanche em si, isto é, às favas com o ordenamento jurídico —, por outro é impossível a qualquer pessoa que reivindique alguma estima pela civilização endossar aquelas atrocidades, de um realismo estarrecedor, contra quem quer que seja. Heroísmo nenhum pode ser autêntico quando precisa-se incorporar um espírito de combate que se dilata ao longo de uma existência sem nexo e sem propósito genuinamente robusto. Essa conjuntura de dificuldades extremas, que se avultam e nos fazem lutadores quando não desejávamos, numa arena onde se está para matar ou para morrer, obriga-nos a lançar mão de atitudes que hão de nos levar a um deserto onde a esperança murcha, um bom resumo do filme de estreia de Aleshea Harris.

Barbárie em dobro

Anaia e Racine estão marcadas. Um flashback mostra as gêmeas ainda crianças, num aflitivo isolamento, antes que uma delas se levante e reaja ao que parece um ataque racista. Passam-se alguns anos, e elas surgem mulheres feitas, ainda solitárias, mas certamente mais autoconfiantes, resignadas em só poderem mesmo contar uma com a outra, mas incapazes de sufocar a revolta com um episódio do passado que se lhes apresenta todo santo dia, logo depois de acordarem. Harris adapta sua peça homônima valendo-se do ultrarrealismo que só cinema tem e mostra a dupla de protagonistas encarando-se, primeiro trocando impressões ligeiras e em seguida só com dons telepáticos que decerto aprimoraram ao longo do tempo, enquanto lidavam com as dores físicas do abandono. Há em seus corpos cicatrizes, mais no de Anaia do que no da irmã, mas ambas se reconhecem como mártires — e julgam-se no direito de gozar de um privilégio.

Castigo pelo fogo, justiça pelo fogo

A diretora-roteirista usa mais uma analepse a fim de esclarecer o motivo dos queloides e do trauma, em revelações que o sépia puxando para o dourado esmaecido confere beleza vil. Anaia e Racine veem a mãe, Ruby, queimada como elas, mas morrendo, e saem pela Virgínia em seu velho Oldsmobile atrás do culpado por tudo aquilo, ninguém menos que seu pai. Mallori Johnson e Kara Young têm bons momentos com Vivica A. Fox, mas como depreende-se do que foi se encadeando, precisam ter seu acerto de contas com o antagonista caricato de Sterling K. Brown. Harris defende uma toxicidade extra no machismo do homem negro, o que faz certamente baseada em evidências sólidas. Não tenho vocação alguma para juiz, não sei julgar quem quer que seja e cada um sabe de si (ou deveria saber). O que se pode afirmar com toda a certeza sobre o filme é algo pueril de tão elementar: barbárie gera barbárie e ninguém ali tem razão. Emulando o terror de H.P. Lovecraft (1890-1937), Edgar Allan Poe (1809-1849) e Stephen King, além de promover um diálogo estimulante com “Kindred: Laços de Sangue” (1979), de Octavia Butler (1947-2006), ou a Chimamanda Ngozi Adichie de “Hibisco Roxo” (2003), “Ardente Vingança” pretende escarafunchar a origem de comportamentos disfuncionais, mas só o que faz é, lamentável ironia, reforçar preconceitos.


Filme: Ardente Vingança
Diretor: Aleshea Harris
Ano: 2026
Gênero: Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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