Traumas da meninice podem atuar como uma força subterrânea que, mesmo invisível, molda a vida de alguém. Não raro, essas experiências dolorosas erigem muralhas que segregam o indivíduo do mundo e de si mesmo, bloqueando qualquer chance de vínculos afetivos saudáveis e carregados de suas maravilhosas epifanias. Derrubá-las está longe de ser impossível, mas o processo implica bravura e a maturidade de saber que novas dores hão de surgir, até a cura deixar o plano das ideias e, enfim, tomar forma. Inconscientemente e sem querer, Saroo Brierley passou por tudo isso quatro décadas atrás, num país cuja miséria quase inexpugnável literalmente arrastou-o para o turbilhão da vida. O mais infame e terno de seu infortúnio vai em “Lion: Uma Jornada para Casa” com igual peso — despertando, claro, sensações antagônicas. Garth Davis encontra na superfície de uma história trágica a poesia que teima em esconder-se no lodo mais profundo do existir, brincando com um tema sério sem avacalhá-lo. Não é qualquer um que o consegue.
Leãozinho na selva
Até parece fácil, mas vencer o determinismo biológico, geográfico e, sobretudo, político é tarefa para gente que não se espavora frente a uma sina de negligência que cruza os séculos, incita os ânimos e explica a revolta das massas, que toleram até o limite o menoscabo criminoso de quem deveria zelar por elas. Crianças como Sheru Munshi Khan tornam-se guerreiros antes do tempo na luta pela sobrevivência, buscando no pouco conhecimento e nas imposições da cultura a saída para problemas cuja resposta clama por ser achada, não sem muita fé e empenho. Sheru é tão pequeno e indefeso quanto Khandwa é desgraçada e esquecida, convenientemente visitada por turistas, curiosos e gente ávida por “novas vivências”, em especial após o grande sucesso do filme. As mazelas de Khandwa são ainda mais doídas em Ganesh Talai, o povoado do qual Sheru e o irmão mais velho Guddu saem com destino a Burhanpur, para mercanciar trabalho em troca de algumas moedas ou dois saquinhos de leite, sonhando um dia esbanjar com cinema e jalebis. Mas a vida não é-lhe doce.
Um menino no labirinto do mundo
Baseado nas memórias de Saroo Brierley narradas ao jornalista Larry Buttrose, o roteiro de Luke Davies reproduz, claro, as impressões de um garoto de cinco anos em 1986, e muito daquilo a que assiste pode não ter sido assim. Entretanto, ninguém questiona que Sheru — que nem sabe falar direito o próprio nome, “leão”, em hindi, inventando o apelido que o faria célebre —, dificilmente esqueceria quem fingiu ajudá-lo, aliciando-o para uma rede de pedófilos, e da nova desventura, procurando o irmão que, como soube um quarto de século mais tarde, morrera atropelado por um trem na noite em que desembarcaram em Burhanpur. Ingenuamente, toma outra composição e anda mais 1.600 quilômetros ao leste, pensando ter apenas mudado de um bairro para o outro. Talvez intuísse que algo não se encaixasse porque seu hindu não soava muito familiar numa terra em que o bengáli era o idioma; mesmo assim, chamava por seu irmão sumido. Ao contrário de quase todas as outras crianças da mesma idade, Saroo sabe que o mundo não gira em torno do seu umbigo, no que se assemelha um tanto à Alice de Lewis Carroll (1832-1898), embora muito mais arisco, talvez dotado de mais carisma e mais personalidade. Garth Davis urde um conto à Dickens como raras vezes se viu na indústria cinematográfica e Dev Patel, malgrado tivesse muito a crescer, mostra-se um ator admirável. Mas o que é Sunny Pawar?! Uma força da natureza que obriga-nos a não duvidar da esperança.

