Mario Benedetti faria 106 anos neste 14 de setembro. O uruguaio, que morreu em 2009, foi um daqueles escritores que a crítica às vezes olha meio de soslaio porque o público os ama demais. Ele não foi simplesmente um desses amores de temporada. Benedetti atravessou gerações, línguas, países e continuou sendo lido depois da morte. Mas acabou pagando aquele preço que escritores populares sempre pagam. Quanto mais são lidos, quanto mais leitores conquistam, mais uma parte da crítica desconfia deles. Como se ser compreendido por milhões de leitores fosse um defeito. Obviamente não era Borges, não tinha a ousadia formal de Cortázar nem a densidade quase sufocante de Juan Carlos Onetti, seu conterrâneo. Fazia parte da mesma geração, a de 45. Benedetti não inventou labirintos. Também não desmontou a forma do romance. Para ele era possível extrair algo extraordinário de um funcionário de escritório, de uma mulher comum, da solidão que nos atravessa. Mas Benedetti foi, sem dúvida, um escritor extraordinário, gigante. Escreveu mais de uma centena de livros. Mas “A Trégua” é sua magnum opus.
O romance começa com Martín Santomé contando os dias. Viúvo, pai de três filhos adultos, funcionário de escritório, ele parece olhar para os dias com um único desejo: que eles passem e que sua aposentadoria chegue logo. A história é contada em forma de diário. Não é um diário para explicar a vida. Santomé escreve apenas para suportar o tempo. A cada data registrada, o leitor percebe que o calendário se move, mas nada de diferente acontece. É um diário de uma derrota, uma derrota menor, tediosa e banal. Santomé trabalha, conversa com os filhos, a vida não acabou, mas ele parece não esperar absolutamente mais nada dela.
E é exatamente nesse mundo de contas, horários repetidos, tédio e vontade de que os dias passem que Laura Avellaneda aparece. Não é aquele tipo de personagem que, quando abrimos os livros, já percebemos que está destinada, desde a primeira página, a salvar ou mudar a vida de alguém. Ela é apenas uma colega de trabalho muito mais jovem, discreta, misturada à mesma rotina da repartição em que ele trabalha. Benedetti não precisa de acontecimentos extraordinários nem de grandes viradas dramáticas para contar essa história de amor.
Santomé vinha vivendo por inércia, e a chegada de Avellaneda interrompe isso por alguns meses. A própria palavra trégua parece trazer uma espécie de prazo de validade. Quando ela morre, a dificuldade não é simplesmente voltar ao que havia antes, até porque antes ele nem sabia exatamente o que existia. Antes ele não suportava os dias. Agora o que não suporta é viver sem aqueles dias. Agora ele sabe. E talvez seja aí a maior crueldade do romance. A perda pode devolvê-lo ao mesmo lugar, mas jamais devolverá o mesmo homem.
Benedetti conhecia bem esse universo. Nasceu em Paso de los Toros, no Uruguai, em 1920, e começou a trabalhar muito cedo. Trabalhou com peças automotivas, numa imobiliária e como taquígrafo. Foi jornalista. Antes de se tornar um escritor conheceu por dentro a rotina que depois colocaria em seus livros. O escritório e as repartições públicas não eram para o autor uma abstração sociológica. Quando publicou “Poemas de la Oficina”, em 1956, transformou aquela pequena vida dos empregados de escritório, a burocracia diária, em matéria poética. Em “Montevideanos”, o olhar se amplia para a própria cidade.
A grandeza de Benedetti começa exatamente aí. Ele nunca confundiu vida comum com história pequena. Seus livros provaram que a vida, mesmo a mais comezinha, mesmo aquela que parece apenas passar, pode render algum significado. Quase ao contrário de Francisco Otaviano, no poema “Ilusões da vida”, Benedetti soube olhar justamente para quem parecia apenas passar pela vida — e encontrar alguma coisa ali.
Depois do golpe de Estado no Uruguai, Benedetti deixou o país. Mas não saiu para fazer turismo; saiu como exilado, obrigado a partir. Passou pela Argentina, depois pelo Peru, por Cuba e pela Espanha. Na Argentina, a “Triple A” o ameaçou de morte. Do Peru, acabou expulso. Montevidéu foi ficando para trás. E para Benedetti, um escritor tão ligado ao seu país, isso não era apenas uma questão geográfica. Boa parte de sua literatura acontecia em Montevidéu.
Quando conseguiu voltar, em 1985, com o retorno da democracia ao país, ele, que já havia passado mais de uma década fora, batizou aquela experiência de desexílio. Uma palavra estranha, mas, ao mesmo tempo, extremamente precisa. Porque o exílio, ainda que acabasse no mapa, não acabava dentro de quem voltava. Santomé voltou à mesma vida depois de Avellaneda, mas já não era o mesmo homem. Benedetti voltou ao mesmo país, mas já não era o escritor que tinha partido.
Havia ainda Luz López Alegre, a mulher com quem Benedetti se casou em 1946. E os dois atravessaram praticamente toda a vida adulta juntos. Sessenta anos de casamento. Luz conheceu o escritor muito antes da fama, antes do exílio, antes de “A Trégua”. Conheceu Benedetti antes de ele se tornar “Benedetti”, entre aspas. Ela morreu em 2006. Benedetti sobreviveu apenas mais três anos. Não é preciso transformar os três anos sem ela numa explicação para sua morte. Em 2009, já muito debilitado, aos 88 anos, Benedetti morreu em sua casa, em Montevidéu.
A literatura latino-americana do século 20 produziu alguns dos maiores nomes da escrita mundial: Borges, Cortázar, Onetti, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa. Estar ao lado deles naturalmente seria difícil para qualquer escritor. Benedetti ainda carregava um problema adicional. Era popular demais. E o sucesso, no seu caso, funcionava como uma suspeita: se vendia, era ruim. Seus poemas eram decorados, recitados. Frases suas escaparam dos livros e até hoje encontramos algumas pela internet que parecem ganhar vida própria. Livro bom é aquele tipo de livro impossível de entender. Às vezes a crítica perdoa quase tudo. Menos um escritor que o leitor entende antes dela.
Benedetti jamais foi um escritor menor. Foi um escritor diferente daqueles com os quais insistiram em compará-lo. Também não transformou cada romance numa demonstração de técnica. Queria que a literatura chegasse às pessoas. “A Trégua” continua sendo lida sem precisar que ninguém explique ao leitor por que deveria lê-la.

