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Humberto Werneck tinha 21 anos quando conheceu Murilo Rubião. Era um rapaz querendo escrever, diante de um escritor que admirava, e aconteceu de Murilo lhe pedir opinião sobre seus contos. Alguns tinham começado a ser escritos antes do nascimento daquele leitor. Werneck guardou a lembrança de uma confiança que o espantava. O homem mais velho, com uma obra publicada, submetia ao julgamento do iniciante páginas às quais já havia dedicado anos. O conto “O convidado”, contaria depois, consumiu 26 anos de trabalho. Murilo ainda encontrava o que fazer nele.

Nasceu em 1º de junho de 1916, em Silvestre Ferraz, hoje Carmo de Minas. O pai, Eugênio Álvares Rubião, era filólogo; a mãe se chamava Maria Antonieta Ferreira Rubião. Ao escrever um autorretrato, aos 33 anos, Murilo reconheceu no pai a origem de sua timidez e daquele jeito cerimonioso que, receava, o tornava pouco simpático. Lamentava especialmente o efeito sobre as mulheres. A gravidade da apresentação ia cedendo a pequenas malícias. O pai escrevia bem apesar de gramático; ele próprio jamais tinha sido o primeiro aluno da classe. Já tinha exercido cargos nas associações de escritores, êxitos que preferia contabilizar como conquistas na burocracia das letras. Sabia diminuir a solenidade de uma biografia, a começar pela sua.

Ganhou a vida vendendo livros científicos, dando aulas, trabalhando em jornal. Formou-se em Direito em 1942 e, no ano seguinte, dirigia a Rádio Inconfidência. Em 1947 saiu “O Ex-Mágico”, seu primeiro livro, preparado ao longo de sete anos. A publicação não o tornou mais condescendente consigo mesmo. No autorretrato, depois de mencionar a demora, acrescentou que nem por isso ele tinha saído melhor. Havia humor na frase, naturalmente, mas quem acompanhou as sucessivas revisões de Murilo podia reconhecer nela uma avaliação bastante séria.

Na literatura brasileira daquele momento, era difícil encontrar companhia para seus contos. Murilo fez da convivência cotidiana com o impossível o centro de sua obra, muito antes de o sucesso internacional do realismo mágico latino-americano familiarizar um público amplo com esse tipo de ficção.

Murilo foi chefe de gabinete de Juscelino Kubitschek no governo de Minas e trabalhou em Madri entre 1956 e 1960, ligado à representação brasileira. Para a sobrinha Sílvia, ainda menina, a Espanha era o lugar de onde chegava aquele tio de chapéu e sobretudo, trazendo uma mala de presentes. Em casa apareciam leques, castanholas, bonecas. Na lembrança dela, a família se reunia em torno da mala aberta. De volta a Belo Horizonte, Murilo passou a frequentar os almoços de sábado com o irmão, o médico Paulo Emílio, e sua família. Gostava de costelinha com canjiquinha.

Sílvia conta que, durante uma doença que a obrigou a ficar na cama, recebeu do tio um alfabeto de brinquedo. Vieram também os livros; “Viagem ao Céu”, de Monteiro Lobato, foi um dos primeiros. Murilo acompanhava suas redações.

Em setembro de 1966 começou a circular o “Suplemento Literário do Minas Gerais”, que Murilo organizou na Imprensa Oficial. A publicação ofereceu espaço a escritores jovens, entre eles Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna e o próprio Werneck.

“O Ex-Mágico” recebeu um prêmio da Academia Mineira de Letras em 1948, mas o reconhecimento mais amplo só viria nos anos 1970. Quando o editor Jiro Takahashi foi a Belo Horizonte propor uma edição de seus contos, Murilo o recebeu na redação do “Suplemento”. Estava trabalhando e pediu que voltasse no fim do expediente. A conversa continuou no Lua Nova, no edifício Maletta, onde o escritor tinha uma mesa de canto reservada. Jiro queria publicar 30 mil exemplares, uma tiragem que permitiria vender o livro mais barato. Precisou convencer Murilo a aceitar. Werneck lembra que o autor tinha pagado parte da edição de “O Ex-Mágico”, depois de receber a recusa de seis editoras. Agora, uma seleção dos contos abriria a coleção Nosso Tempo, da Ática.

Durante a revisão das provas, Jiro recebia cartas em que Murilo justificava as mudanças feitas nos contos. As correções dos revisores não o aborreciam, segundo o editor. Ele aceitava as observações e fazia outras, muito mais numerosas, chegando a reescrever contos que já estavam em produção. Nem a escolha de quem narrava a história estava a salvo.

Elifas Andreato fez o projeto gráfico e as ilustrações. Seus desenhos foram expostos no Palácio das Artes durante o lançamento. “O Pirotécnico Zacarias” chegaria aos 100 mil exemplares em poucos anos, segundo Werneck. Murilo admitiu que a repercussão o tinha assustado um pouco.

Werneck chegou a uma conta que merece acompanhar a leitura dos livros. Murilo publicou 51 contos e descartou 18. “O Ex-Mágico”, “Os Dragões e Outros Contos”, “O Pirotécnico Zacarias”, com suas retomadas, permitem acompanhar um escritor que continuava insatisfeito diante do que o leitor já podia admirar.

Em “Teleco, o coelhinho”, o narrador leva para casa um coelho que lhe pede um cigarro. A convivência começa bem. Teleco muda de forma, diverte os outros, parece contente em agradar. A amizade se complica quando ele passa a se apresentar como Barbosa, afirma que é homem e aparece acompanhado de uma mulher. O narrador vê um canguru. Deseja a mulher e acaba expulsando os dois. Quem nos conta a história, portanto, tem participação na desgraça que vai contar. O leitor precisa ouvir aquele homem sem esquecer o que ele fez. Mais tarde, Teleco volta, doente, incapaz de controlar as mudanças do próprio corpo. O narrador tenta cuidar dele. Ao acordar, tem nos braços uma criança morta.

Nos últimos anos, a doença afastou Murilo dos amigos e interrompeu a escrita. Sílvia, que tinha sido sua vizinha de porta na Rua do Ouro, lembrava as reuniões no apartamento, pelo menos uma vez por semana, com artistas e escritores conversando madrugada adentro. O tio gostava de companhia. Nas festas da família, procurava os jovens e evitava os mais velhos, que, segundo ele, só falavam de doença.

Jiro ainda o visitou quando adoeceu. Na última dessas visitas, Murilo tinha autorização do médico para sair da dieta restrita e propôs que fossem ao Alpino, restaurante onde os dois já haviam estado muitas vezes. Foram. Sílvia conta que ele deixou contos por terminar e duas novelas esboçadas. Coube a ela cuidar da obra e do acervo. A sobrinha doou os documentos à Universidade Federal de Minas Gerais, atendendo ao desejo do tio.

Preparava-se para setembro de 1991, no Palácio das Artes, a exposição “Murilo Rubião — Construtor do Absurdo”, homenagem que ele deveria receber em vida.

Na quinta-feira, 12 de setembro, Murilo telefonou a Jaime Prado Gouvêa e pediu que o acompanhasse a uma exibição do curta “O Pirotécnico Zacarias”, de Rodolfo Magalhães, no edifício Maletta. Jaime foi buscá-lo no apartamento. Desceram, passaram pela Cantina do Lucas e foram à sessão. Depois, o amigo o deixou com outras pessoas. Foi a última vez que o viu vivo.

Murilo morreu em Belo Horizonte na segunda-feira, 16 de setembro de 1991, aos 75 anos. Jaime voltou a encontrá-lo naquela noite, no velório, no Palácio das Artes. A exposição estava marcada para o dia 20.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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